Economia busca equilíbrio

Estão falando muita insensatez sobre o Brasil, lá fora. Até o Financial Times e o Economist entraram nessa. O crescimento econômico do Brasil é artificial, vai acabar numa bolha, e daí por diante. Primeiro, a economia já está desaquecendo, confirmam os últimos indicadores. Nada mais de 11% anualizados. Cresceu muito por causa da política de estímulos fiscais, aumento de liquidez, medidas adotadas para superar rapidamente os dois trimestres de recessão, mas agora já está desacelerando.

Alberto Tamer, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2010 | 00h00

Vamos crescer ainda muito, sim, pois a demanda interna se mantém aquecida com o aumento da renda principalmente da classe D, famílias (não só pessoas, famílias) que ganham até dez salários mínimos, R$ 1.533,00, com reajuste real, descontada a inflação de mais de 50%.

Há o aumento dos juros, sim, mas seu efeito sobre a demanda é gradual; será sentido mais adiante. Mesmo assim, a economia deve crescer entre 6,5% e 7% este ano. Não se pode dizer que isso represente um superaquecimento persistente. Seria insustentável se o Banco Central e a equipe econômica não estivessem atentos.

China? Não. Não se pode também dizer que estamos crescendo no "ritmo chinês". Quando muito, ao ritmo do "consumo"chinês. A demanda interna, sim, 10%, mas a economia como um todo, não. Eles produzem mais, exportam mais, acumulam saldos comerciais crescentes, avançam ousadamente no mercado mundial. Têm reservas de mais de US$ 2 trilhões e manipulam sua moeda. Dizem que o yuan agora flutua, mas continuam controlando o câmbio. Podem absorver os efeitos laterais da entrada de dólares. E, acima de tudo, a China tem uma economia centralizada, administrada pelo governo, pelo Partido Comunista que é mais capitalista que o Partido Republicano dos Estados Unidos. A diferença é que controla um país onde só é livre quem ele deixa.

Podemos crescer 7%? Uma analise lúcida, consistente e equilibrada feita para a coluna por Ilan Goldfajn, também colunista do Estado, doutor em economia pelo MIT, Instituto de Tecnologia de Massachusets, um dos melhores do mundo, e ex-diretor do BC. "O segundo trimestre foi mais fraco. O mundo se desacelerou, o consumo das commodities, as exportações, os investimentos. Mas isso vai mudar. No Brasil, o consumo arrefeceu porque as pessoas perderam temporariamente a vontade de comprar e a isenção do IPI acabou. Mas, agora, isso vai se reverter porque as pessoas têm mais renda."

O Brasil pode crescer 7,5% este ano, mas precisa de reformas para manter esse ritmo no futuro. A economia deve desacelerar ao longo do tempo, na medida em que o BC está mudando a postura da política monetária, afirma Goldfajn à coluna. Ou seja, estamos crescendo muito, sim, mas a acomodação a níveis sustentáveis já está sendo feita. É pena que os colegas do Economist e do Financial Times não o ouviram antes de escrever nem atentaram para isso. O problema está lá fora. Estados Unidos, Europa, onde ninguém se entende. Como diz o ex-ministro Delfim Neto, "a confusão é geral". Obama conseguiu convencer o Congresso americano a prorrogar o sálario- desemprego, o que vai implicar mais US$ 3 bilhões de auxílio aos demitidos. Bernanke apresentou ontem à Camara dos Deputados um relatorio muito incisivo ao Congresso. Reconhece que o cenário econômico permance "incomumente incerto".

E então? Então que, tendo em vista as últimas medidas da equipe econômica e do BC, o governo se mostra consciente de que a economia cresceu muito, mas já desacelera. Ninguém mais sai gritando contra a elevação dos juros. Pode ser que eu esteja enganado, mas há sinais de que o governo está consciente de que economia só pode crescer mais de 7% de forma sustentada se houver investimento e produção. E que em Brasília se caminha para um equilíbrio.

Vamos torcer para que a coluna esteja certa.

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