Tiago Queiroz/Estadão
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'Economia chinesa, como um todo, ainda vai bem'

Para Arthur Kroeber, diretor-gerente da GaveKal Dragonomics, pessimistas focam muito no que ele chama de 'velha economia'

Cláudia Trevisan , O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2015 | 02h04

WASHINGTON - O pânico em relação à China que vem contaminando os mercados globais não reflete a situação econômica do país asiático, cuja desaceleração está distante de um colapso descontrolado, avalia Arthur Kroeber, diretor-gerente da GaveKal Dragonomics e um dos mais respeitados observadores da segunda maior economia do mundo.

Na opinião de Kroeber, os pessimistas focam de maneira excessiva no que ele chama de "velha economia" - indústria pesada e construção - e negligenciam a "nova economia" representada pelo setor de serviços, que se expande a mais de 10%. A seguir, os principais trechos da entrevista.

É justificável o pânico dos mercados em relação à China?

Basicamente, não. Não há dúvida de que o crescimento econômico está desacelerando, mas está desacelerando em ritmo modesto. E há uma grande diferença entre o que podemos chamar de velha economia - da indústria pesada e da construção, que não está indo tão bem - e a nova economia de consumo e serviços, que está indo muito bem. O crescimento do PIB está entre 6% e 7%. Na indústria, a expansão é próxima de 3%. Mas no setor de serviços, o porcentual é de 10% a 11% em termos nominais. A economia está passando por uma reestruturação que é muito dolorosa para determinados setores e regiões. Mas a economia como um tudo ainda está indo bem. O problema é que o mercado acionário se descolou da economia real. Houve uma grande bolha no início deste ano, que não refletia os fundamentos. A bolha estourou e o governo interveio para tentar sustentar o preço de ações de maneira artificial. Esse esforço foi muito caro e eles decidiram abandoná-lo. Quando eles retiraram esse apoio artificial, o preço das ações despencou.

A queda no mercado acionário pode ter impacto sobre a economia real?

Modesto. Há alguns mecanismos clássicos pelos quais o mercado acionário pode afetar a economia real. O primeiro é quando as famílias têm grande parcela de sua riqueza em ações. Se há uma queda, há redução na riqueza das famílias, que terão menos dinheiro disponível para gastar. Mas a maior parte da riqueza na China está vinculada ao setor imobiliário, a depósitos bancários e a fundos de gestão de riqueza. O mercado acionário responde por menos de 10% da riqueza das famílias. Talvez ainda menos, em torno de 5%. O segundo mecanismo pelo qual a queda nas bolsas pode ter impacto sobre a economia é se as companhias dependem de ações para financiar novos investimentos. Mas apenas cerca de 5% ou 6% dos novos investimentos são financiados pelo mercado acionário. Por fim, se o sistema bancário emprestou muito dinheiro para investimentos no mercado acionário, pode haver dificuldade no pagamento desses empréstimos. Mas não vimos isso.

Parte do pânico foi provocada pela mudança no câmbio e a consequente desvalorização do yuan, no dia 11 de agosto. A decisão foi um sinal de preocupação do governo com a desaceleração da economia ou uma resposta ao FMI, que exige a flexibilização do câmbio para incluir o yuan na cesta de moedas de reserva (SDR)?

Ambos os fatores estavam presentes, mas um (o FMI) é claramente mais importante que o outro. Se o governo realmente quisesse dar um impulso de curto prazo ao crescimento, ele não teria parado em uma desvalorização de 3%. Teria ido a 10%, 15% ou 20%. As ações adotadas desde 11 de agosto mostraram que o governo não estava interessado em uma grande desvalorização. O fator mais importante é que o Banco Central pressionava havia anos pela adoção de uma taxa de câmbio mais flexível e a inclusão do yuan na SDR foi usada para forçar essa mudança. Acredito que eles também consideraram que a economia está fraca e que o yuan havia se apreciado em 14% desde o ano passado e concluíram que, na margem, a desvalorização ajudaria. Mas a principal razão foi atender às exigências do FMI.

O sr. teme um pouso forçado da economia?

Não estamos tão preocupados ainda. O crescimento econômico está desacelerando na China há três anos. O governo começou a cortar juros em novembro e, desde então, houve cinco cortes, que tiveram algum impacto. A venda e o preço de imóveis começaram a subir de novo e o mercado imobiliário residencial está em uma situação muito melhor do que há seis ou sete meses. Isso não se traduziu em aumento na construção porque o estoque de residências é muito elevado. Apesar de os cortes de juros terem ajudado, seu impacto é limitado e a atividade econômica está um pouco pior do que a maioria das pessoas esperava. Mas não é muito pior. A dinâmica básica não mudou muito. Todo mundo olha para as partes da economia que estão em dificuldade, mas com frequência negligenciam os setores da economia que estão indo bem ou ao menos não estão piorando: serviços, consumo, salários, emprego. Se esses setores estão estáveis e a indústria e a construção estão em queda, a economia como um todo continua a desacelerar, mas em um ritmo gradual. Isso não é muito diferente do que há seis meses.

O que esse cenário significa para um país como o Brasil?

Nada muito bom. A demanda chinesa por minério de ferro não está mais crescendo de maneira importante. A chave agora para o preço é o tamanho da oferta. Enquanto ela não for reduzida, os preços continuarão fracos. Nunca mais teremos um período em que a demanda chinesa crescerá de maneira significativa. Ela ainda está crescendo ao redor de 1% ao ano, mas vai estabilizar e começar a cair em alguns anos. A exportação de produtos agrícolas poderia ser influenciada pelo aumento do consumo, mas temos de ser cautelosos. O que veremos é aumento da demanda por alimentos processados. Aí estará o grande crescimento, mas não estou seguro de que o Brasil esteja pronto para explorar isso.

Quais são os principais riscos econômicos e políticos da China?

Por que o crescimento da China está desacelerando ano a ano? A razão básica é que o investimento não é produtivo. E isso ocorre porque muitos recursos são sugados por empresas estatais, que não dão bom retorno sobre investimento. É preciso reestruturar a economia para que as estatais recebam menos recursos e o setor privado receba mais. Para fazer isso, é necessário um programa de reforma das estatais. É preciso privatizar muitas das pequenas empresas e tornar os mercados mais competitivos. Há dois anos o governo anunciou que faria isso, mas nada aconteceu. Até que isso ocorra, não vejo uma estabilização e uma nova aceleração do crescimento chinês.

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