Economia de Portugal encolheu para se ajustar à UE

Para economistas, ajuste de Portugal para ingressar no bloco europeu acabou por cortar renda da população 

Jamil Chade, enviado especial de O Estado de S.Paulo,

17 de maio de 2014 | 12h46

FARO, PORTUGAL - A crise fez a Europa redescobrir a pobreza e, diante de cortes e redução de gastos, entidades e economistas admitem que o modelo do estado do bem-estar social criado no continente depois da 2.ª Guerra Mundial pode ter chegado ao fim. Em todo o continente, governos de esquerda, centro ou direita se lançaram numa ofensiva para ajustar suas contas reduzindo benefícios sociais, cortando gastos no sistemas de saúde e educação, reduzindo salários, demitindo milhares de pessoas e limitando os números de ajuda social. "Nunca voltaremos a ter o que tínhamos antes", diz o presidente da seção do Algarve da Cáritas, Carlos Oliveira.

Mas o desabamento de um modelo social não se limitou aos cortes de benefícios. Para economistas, o que ocorreu em Portugal e na periferia da Europa foi a desvalorização da economia para se ajustar ao bloco europeu. Se num país com sua própria moeda isso é feito por meio da manipulação do câmbio, Portugal teve de cortar a renda da população.

Para certos economistas e o governo, a estratégia funcionou para tornar o país mais competitivo e atrair empresas que queiram produzir no país e exportar. Os salários diminuíram 1,5% em 2011, 0,5% em 2012 e 4,9% em 2013. No resto da Europa, a tendência seguiu um caminho inverso.

Para multinacionais em busca de mão de obra barata, a desvalorização da renda em Portugal foi comemorada. A Volkswagen, por exemplo, anunciou investimentos de 670 milhões numa linha de veículos destinada a exportação em Portugal. O resultado foi uma entrada de recursos que ajudou a lidar com o buraco nas contas do Estado.

O problema, para ONGs e economistas, é que quem pagou a conta foi a classe média. "Essa crise e a estratégia usada pelo governo levaram muitas famílias a condições muito próximas da pobreza", diz o cientista político português Antonio Costa Pinto, professor da Universidade de Lisboa e um dos acadêmicos mais reconhecidos no país.

O desemprego continua batendo recordes, de 15,2%. E todos os dados - tanto do governo quanto de entidades independentes - indicam que a desigualdade aumentou e o número de pobres se multiplicou. "Hoje o país vê o surgimento de uma nova classe social: ‘os novos pobres’, envergonhados por sua situação", diz Carlos Oliveira.

Segundo a OCDE, Portugal foi um dos países onde a desigualdade social mais aumentou entre os países ricos. Para a Eurostat, 25% dos portugueses estão em risco de pobreza ou exclusão social, o que equivale a 2,6 milhões de pessoas. O cálculo é feito com base nas pessoas que ganham pouco mais de 420 por mês, valor considerado como a linha da pobreza no país. O Instituto Nacional de Estatística de Portugal considera que 10,1% da população tem sérias dificuldades de obter renda para arcar com gastos de moradia.

Segundo as ONGs, uma das dificuldades em lidar com a crise foi o fato de que muitas famílias evitaram mostrar que estavam endividadas e haviam perdido tudo. "Hoje temos uma campanha que pede que as pessoas estejam atentos a seus vizinhos. Ele pode estar numa situação dramática e não revela por vergonha", diz Oliveira.

A reportagem do Estado acompanhou a distribuição de alimentos no Faro. A opção da Cáritas foi a de acabar com a ideia de refeitório, algo considerado humilhante para muitos "novos pobres". "As pessoas vêm aqui, pegam a comida e levam para casa para comer em sua mesa, com os filhos."

Vários são os sinais da nova pobreza, levando a sociedade portuguesa a adotar novos hábitos. Uma mudança no comportamento foi o uso mais frequente de bicicletas e do transporte público. A taxa de divórcio foi reduzida após a constatação de casais de que não tinham como financiar sozinhos uma nova casa e milhares de jovens optaram por ficar mais tempo estudando diante da falta de emprego.

Para a Organização Internacional do Trabalho (OIT), outro legado da crise foi a criação de uma geração perdida. O desemprego bateu recordes e o continente se deparou com uma realidade irônica: nunca sua juventude esteve tão preparada para o mercado de trabalho e nunca tantos jovens tiveram acesso à universidade. Mas, pela primeira vez desde a 2.ª Guerra, a certeza de um emprego desapareceu.

Jovens com educação universitária passaram a se contentar com trabalho em restaurantes. Mateus Carvalho, um arquiteto de 31 anos, perdeu o emprego que tinha no Porto em 2010. No ano seguinte, abriu uma empresa que, um ano depois, faliu. Hoje é garçom em um hotel da região do Algarve. "Estou a juntar dinheiro para tentar a sorte em Berlim", diz Mateus, que é trilíngue. 

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