Alex Silva/Estadão
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Economia do Brasil teve um 1º trimestre difícil, mas retomada continua

País teve crescimento relativamente forte nos dois primeiros meses do ano, aumento da produção industrial e da atividade nos setores de comércio e serviços

José Márcio Camargo*, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2021 | 04h00

O primeiro trimestre de 2021 foi particularmente difícil para a economia brasileira. O País viveu uma segunda onda da pandemia, que ainda não foi totalmente revertida, com números de casos e de mortes muito superiores aos da primeira onda. O excesso de demanda por vacinas no mundo e a incapacidade dos produtores nacionais de atender à demanda interna atrasaram o processo de vacinação e geraram forte tensão entre a população.

A disputa pelas presidências da Câmara e do Senado paralisou o Congresso, travou a votação das reformas, atrasou a aprovação do Orçamento e gerou incertezas quanto à possibilidade de que o teto para o crescimento do gasto público viesse a não ser respeitado.

Após as eleições no Legislativo houve um momento de descontração, com o destravamento da pauta do Congresso e a consequente aprovação de um conjunto importante de projetos como o novo marco regulatório de óleo e gás, a nova lei de falências, o novo marco regulatório do saneamento, a autonomia do Banco Central, a Reforma Emergencial, entre outros.

Entretanto, o impasse gerado pelas negociações em torno da aprovação do Orçamento de 2021 criou um ambiente de grande incerteza, trazendo de volta o fantasma do travamento da pauta no Congresso, reduziu a probabilidade de andamento das reformas e, ao mesmo tempo, voltou a aumentar a probabilidade de que o teto do gasto público não fosse respeitado. No final do processo, a solução do impasse, com o veto do presidente da República a gastos discricionários e investimentos dos Ministérios, mantendo o Orçamento dentro do teto, melhorou o ambiente político e econômico e reduziu a volatilidade.

Apesar deste ambiente fortemente negativo a economia brasileira se mostrou bastante resiliente, com crescimento relativamente forte nos dois primeiros meses do ano, aumento da produção industrial e da atividade nos setores de comércio e serviços. Com a introdução de lockdowns em algumas das principais cidades do País e o aumento das medidas de isolamento social, a atividade mostrou queda em março, mas, ainda assim, bem menor do que a esperada pelos analistas. E, após a queda de março, os indicadores antecedentes para o segundo trimestre têm mostrado comportamento positivo.

Ao mesmo tempo, o governo implementou com sucesso um forte programa de concessões, com o leilão de 22 aeroportos, 1 ferrovia, 3 instalações portuárias, 1 rodovia, além da privatização dos serviços de esgoto sanitário no Estado do Rio de Janeiro, que vai exigir investimentos da ordem de R$ 30 bilhões em 10 anos. Todos os leilões tiveram forte demanda e ágios elevados, gerando um total de outorgas da ordem de R$ 50 bilhões, o que indica que o País continua atraente para os investimentos de longo prazo.

Fatores do lado da oferta e do lado da demanda justificam este comportamento positivo da economia. Do lado da oferta, em razão das características desta recessão, deverão sobreviver à crise os agentes com maior produtividade e com maiores reservas, ou seja, com mais acesso ao mercado de capitais, o que é favorecido pelo elevado nível de liquidez internacional e pelas baixas taxas de juros vigentes. Os menos produtivos e os agentes com poucas reservas e pouco acesso ao mercado de capitais deverão ficar pelo caminho.

Do lado da demanda, depois de mais de um ano impossibilitados de convivência social, de frequentar bares e restaurantes, fazer compras presencialmente, as pessoas estão ávidas para retomarem sua vida social, o que deverá gerar forte crescimento da demanda. Este é um cenário muito propício ao crescimento do investimento e, portanto, da economia.

Os maiores riscos a este cenário são o agravamento da pandemia e os entraves decorrentes dos gargalos nas cadeias produtivas, o excesso de demanda por insumos e as pressões inflacionárias, o que poderá forçar os bancos centrais a reduzir a liquidez e aumentar as taxas de juros.

*PROFESSOR TITULAR DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA PUC/RIO (APOSENTADO) E ECONOMISTA-CHEFE DA GENIAL INVESTIMENTOS

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