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Economia e eleições

As incertezas que rondam as eleições para presidente do Brasil, em 2018, exigem análise menos linear da influência das estatísticas econômicas

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2018 | 21h00

É claro que, para o bem ou para o mal, o desempenho da economia tem influência no resultado eleitoral de âmbito nacional. Quem não está convencido precisa lembrar-se do tão celebrado slogan criado pelo marqueteiro James Carville, em 1992, que garantiu a vitória do então quase desconhecido candidato Bill Clinton sobre o então favorito nas pesquisas, presidente George H. W. Bush: “É a economia, idiota!”.

Mas as incertezas que rondam as eleições para presidente do Brasil, em 2018, exigem análise menos linear dessa influência.

O dado objetivo é o de que, ao longo de 2018, a economia do Brasil terá desempenho bem melhor do que em 2017. Como já foi avaliado por esta Coluna em outras oportunidades, dá para esperar crescimento do PIB de algo em torno dos 3,0%, cerca de dois pontos porcentuais mais alto do que o que terá sido o de 2017 – resultado a ser divulgado pelo IBGE.

Um avanço tão expressivo da atividade econômica, por sua vez, implica aumento do emprego e da renda. Tudo vai sendo canalizado para uma inflação também da ordem de 4,0%, mais alta dos que os 2,8% que poderão ser registrados neste ano, mas, ainda assim, bem inferior ao padrão dos anos anteriores. Este é fator que também ajudará a preservar a renda do assalariado.

Afora isso, esperam-se ótimas safras agrícolas – ainda que abaixo do recorde de 2017. E poucas ameaças de instabilidade na área financeira. Turbulência, se houver, correrá na cola da insuficiência de reformas que apontem para melhora da qualidade das contas públicas. Em suma, a recuperação da economia em 2018 parece fortemente provável. Que impacto isso poderá ter nas eleições de 2018?

O jogo do governo é despertar, a partir do fator bolso, essa boa vontade do eleitor e, a partir daí, contar com apoio a seus candidatos. Um dos pré-candidatos potenciais de centro, o atual ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, trabalha declaradamente para isso.

Mas é preciso ver também até que ponto o eleitor terá percepção de que a vida dele melhorou. É fator de avaliação bem mais complicada. O que acontece com a inflação nos dá uma indicação de que nem sempre realidade e percepção dão alguma liga. Embora as estatísticas de todos os institutos que calculam a inflação convirjam para forte queda ao longo de 2017, grande número de pessoas entende que esse recuo não se confirma com o que se sente no bolso.

Mas não basta desconfiar de que a percepção do eleitor não tem tanta influência no resultado das eleições. O debate político está visceralmente polarizado. E há fatores que poderão pesar decisivamente. Para o dia 24 de janeiro, por exemplo, está marcado julgamento em segunda instância do ex-presidente Lula, que pode mudar muita coisa. E sobre a decisão do eleitor podem atuar influências de outra natureza que continuarão turvando o horizonte e, portanto, seu sentimento sobre a melhora da economia.

E há fator adicional cuja atuação é hoje grande imponderável. Trata-se do jogo das redes sociais. O acesso a financiamentos de campanha foi reduzido e é de se esperar que a campanha eleitoral tenha outras dimensões. Praticamente todos os brasileiros têm um celular, por meio do qual recebem mensagens de todo tipo. E as eleições de 2018 serão as primeiras em que a guerra da comunicação acontecerá com mais força e abrangência. Não há parâmetro com que se possa avaliar previamente esse novo instrumento de formação de opinião.

O que dá para dizer é que nas últimas eleições gerais dos Estados Unidos, da França e do Chile, as redes sociais tiveram um peso nos resultados que a maioria dos analistas não conseguiu antecipar. E não será diferente no Brasil. 

 

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