Economia fraca quebra o encanto da Bolsa

Nem a queda do rendimento de aplicações em renda fixa tem empolgado o investidor a aplicar em ações

LUIZ GUILHERME GERBELLI, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2013 | 02h05

O mercado de ações no Brasil estava eufórico em junho de 2008, quando a OGX abriu o capital. O oferta pública inicial de ações da petroleira do empresário Eike Batista foi triunfal. A empresa captou R$ 6,7 bilhões, o maior valor até então para uma estreia na Bolsa, e os papéis se valorizaram 8,31% no primeiro dia de negócios.

A aposta na OGX simbolizava a expectativa de um novo Brasil, recém elevado a grau de investimento. No período, a Bovespa também atingia seu patamar recorde. Em 20 de maio, chegou aos 73.516 pontos.

Em setembro de 2008, a crise financeira internacional chacoalhou esse cenário. De lá para cá, o encanto com o Brasil diminuiu. E não foi diferente com a Bolsa. Hoje, aos 45.210 pontos, a Bovespa parece ser o fiel retrato de uma economia menos empolgante, em que mais uma vez a OGX é emblemática - agora pela desconfiança que desperta no mercado. As ações da empresa caíram 88,36% só este ano. Em 12 meses, a queda é de 91,68%.

"Na abertura de capital da OGX havia muita liquidez. E a empresa conseguiu fazer o IPO com muito sucesso", diz Ricardo Rocha, professor de finanças do Insper. O derretimento do valor dos papéis da OGX têm reforçado a dose necessária de sangue-frio que pequenos investidores precisam ter em momentos de turbulência.

"Nos últimos dias, acredito que todos os investidores da empresa ficaram apreensivos", diz o contador Cristiano Bonatto, 27 anos, de Concórdia (SC). Ele estreou no mercado de ações em abril, com a OGX.

"A ação estava entre R$ 1,90 e R$ 2, mas meu preço médio está em R$ 1,04", diz. Na sexta-feira, o papel da empresa fechou a R$ 0,51. "Fui comprando aos poucos porque o preço foi caindo para reduzir meu preço médio." Mas Bonatto aposta na recuperação do papel, pois seu investimento é de longo prazo. "Não investi para especular." O futuro é a mesma aposta do empresário e estudante de economia Diogo de Souza, de 26 anos. "Comprei ações recentemente e estou vendo como uma oportunidade." Ele mora no Rio e pagou R$ 0,80 pelos papéis.

No momento em que o líder de um grande grupo empresarial é colocado em xeque pelo mercado, é preciso rejeitar a ideia de "tomar a parte pelo todo", segundo Vera Rita Ferreira, professora da Fipecafi e autora do livro A Cabeça do Investidor. "Se um empresário não tomou as melhores decisões, não significa que os outros vão errar."

A questão é que o brasileiro já andava desconfiado do mercado acionário. O número de investidores pessoa física cresce pouco. De janeiro de 2007 a agosto de 2008, no auge da liquidez do mercado, a quantidade de investidores saltou de 224.536 para 529.089. Neste ano, o total voltou a superar a casa dos 600 mil - o que já havia ocorrido em setembro de 2010.

A lenta procura pela Bolsa indica que nem o fim do ganho fácil com aplicações a juros altos levaram os brasileiros para o mercado acionário. "O número de investidores poderia ter aumentado se o Brasil tivesse crescido mais no governo Dilma e a inflação estivesse mais controlada", diz Rocha.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.