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Economia global depende mais de emergentes

Há algumas semanas, numa conferência em Cingapura, solicitado a fazer algumas previsões sobre o futuro, afirmei, a título de pilhéria, que o próximo chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) seria sir Alex Ferguson (técnico do Manchester United). Mal sabia que, uma semana depois, o fundo necessitaria de fato de um novo líder.

Jim O'Neill, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2011 | 00h00

Discuti com várias pessoas quais poderiam ser os possíveis candidatos a esse posto, como muitas pessoas também o fizeram. O novo líder deverá satisfazer dois critérios amplos. Ele ou ela necessita ter um profundo conhecimento das questões políticas e econômicas que o FMI tem de administrar e conduzir. E deve ter uma personalidade que lhe permita engajar de maneira bem-sucedida os muitos e diferentes membros do fundo para organizar mudanças e também uma economia mundial melhor e mais equilibrada.

O que esse líder não deve ser é uma "figura decorativa" decorrente apenas de um acerto entre Europa e Estados Unidos para preservar um acordo histórico segundo o qual o FMI sempre tem um líder europeu e o Banco Mundial, um dirigente americano. Se o FMI acabar ficando com uma liderança europeia, essa pessoa terá de enfrentar o ônus adicional de ser vista como o resultado desse acerto, o que vai se somar aos seus desafios.

Inúmeros analistas estão sugerindo que, diante da crise da dívida na Europa e os desafios que a união monetária europeia enfrenta, o novo líder do FMI deve vir da Europa.

Argumento que considero um pouco ridículo, por duas razões. Primeiro, se esse fosse um fator crítico na decisão, ele sugere que deveríamos ter tido um líder latino-americano na década de 80 e um asiático no final dos anos 90.

Em segundo lugar, acredito exatamente no oposto. Na verdade, para resolver realmente a crise do euro, é melhor que a liderança e a autoridade venham de fora da Europa, com um novo olhar independente.

Na minha opinião, essa é mais uma crise de liderança e de governança do que uma crise de dívida soberana de fato. A dívida média ponderada pelo Produto Interno Bruto (PIB) e o déficit contabilizados na zona do euro podem ser comparados favoravelmente com os a Grã- Bretanha e dos Estados Unidos, e a situação é melhor do que a do Japão. Irlanda, Grécia e Portugal têm, cada um, dívidas que parecem problemáticas, e Espanha e Itália poderão ter dificuldades.

Mas, é bom lembrar, Bélgica e Itália aderiram ao euro em 1999 com níveis de dívida de mais de 100% do seu PIB, e isso não impediu que se incorporassem ao sistema.

Preocupação. O problema dos chamados países do Club Med (os países europeus que enfrentam problemas, mencionados acima) é que, neste período pós-crise global, os investidores estão muito mais inquietos em relação aos seus investimentos, e sobre onde querem e não querem aplicar seus recursos. E a atual situação daqueles países é de fato preocupante.

Hoje, parece ser muito claro que o número de países autorizados a aderir ao euro em 1999 foi excessivo. E, como muitos céticos afirmaram, a zona do euro não é uma área monetária ótima.

É fácil para mim fazer essa observação, mas não é fácil para qualquer dos líderes desses países, ou para a Alemanha, ou para a União Europeia (UE), mudarem isso.

Remover quaisquer dos países problemáticos da união monetária pode provocar consequências imprevisíveis. O que não tornará a vida mais fácil para eles, nem para os membros remanescentes, especialmente a curto prazo.

No outro extremo, fazer com que esses países problemáticos se tornem membros do euro mais saudáveis vai exigir não apenas alguns ajustes dolorosos, mas também um conjunto mais verdadeiramente pan-europeu de regras e regulamentos, especialmente em termos de instrumentos fiscais e tomadas de decisões políticas.

Essa é a alternativa que os líderes da Europa têm à sua frente, e não parece que seja uma decisão que estejam dispostos a tomar no momento. Na ausência disso, simplesmente tentam convencer o mundo de que "tudo ficará bem no final".

Continuo a acreditar que, sem um contágio mais severo através dos mercados financeiros, a importância global desses países problemáticos do chamado Club Med é bem menor do que muitos acreditam.

Como afirmei em muitos discursos que proferi, oito das dez maiores contribuições para o crescimento do PIB global na atual década virão das economias emergentes.

O PIB combinado das oito "economias de crescimento", Brasil, Rússia, Índia e China (os quatro BRIC), e também Coreia, Indonésia, México e Turquia aumentará mais do que o quíntuplo do crescimento dos países da zona do euro. O que vai suceder com todos esses países será muito mais importante globalmente do que aquilo que ocorrer na zona do euro.

Se esses oito países em crescimento formassem um clube regional como a UE, penso que o novo líder do FMI deveria, clara e francamente, vir de um deles. Talvez eles devessem tentar escolher em conjunto um candidato preferido, em vez de cada um promover o seu próprio.

Naturalmente, a China se destaca no centro das perspectivas desses oito países emergentes, e ela sozinha contribuirá com metade da evolução do PIB na década.

Em princípio, a China deveria ter um grande peso na decisão sobre o futuro do FMI. Como também costumo mostrar, no ano passado o aumento das importações da China (US$ 400 bilhões) foi maior do que o tamanho da economia total da Grécia.

O que faz com que as importações da China nos próximos anos sejam muito mais importantes do que o problema da dívida grega.

Mas isso significa que o novo dirigente do FMI deva ser um chinês? Em recente conferência sobre os Brics da Goldman Sachs, um cliente me perguntou se eu achava apropriado que o novo dirigente do FMI viesse de um país não democrático.

Foi uma pergunta extremamente boa e difícil. Minha resposta não foi muito simpática para muitos colegas que compunham o painel, ou, suspeito, muito do público ocidental.

Sugeri que os cidadãos da China e da Rússia não parecem muito preocupados com o fato de não viverem em democracias. O que eles desejam é um melhor padrão de vida e mais riqueza. Quanto ao sistema político que vai propiciar isso, eles parecem julgar menos importante.

No tocante ao FMI, não é um requisito ser uma democracia para ser membro da instituição, de modo que não me parece que seu líder deva, necessariamente, vir de um país democrático.

O que um líder realmente eficiente do FMI necessita é ser alguém que compreenda a complexa e inconstante estrutura do mundo, que envolve democracias e não democracias. Tem de ser uma pessoa com uma visão e qualidades de liderança vigorosas. Talvez valha a pena examinar minha proposta feita de brincadeira em Cingapura./TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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