Economia global enfrenta novos riscos

Redução do crescimento na China e o desempenho medíocre da economia americana ameaçam a recuperação internacional

Fernando Dantas / Rio, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2010 | 00h00

A recuperação da economia global pode estar entrando numa zona de turbulência, com a desaceleração simultânea das duas maiores economias nacionais do mundo: Estados Unidos e China.

No caso americano, a situação é bem mais séria. No extremo das preocupações, há uma corrente de economistas, lideradas pelo prêmio Nobel Paul Krugman, que vê riscos de um longo período depressivo nos Estados Unidos. O exemplo seria a combinação de baixo crescimento e surtos intermitentes de deflação que o Japão experimenta desde o início dos anos 90.

Já na China, trata-se de uma saudável redução para um ritmo mais sustentável, e que permanece espetacular. O problema, porém, é que qualquer perda de tração no gigante da Ásia é vista como preocupante por muitos analistas, num momento em que o mundo rico caminha em marcha muito lenta, com riscos de um segundo mergulho recessivo, para os mais pessimistas.

"Nós acreditamos que a China está desacelerando para um crescimento anualizado de 8,5% a 9%, que é próximo ao que julgamos ser a tendência de médio e longo prazo", diz Murilo Cavalcanti, economista do Itaú Unibanco que acompanha a economia chinesa. Segundo as projeções de Qu Hongbin, economista-chefe do HSBC na China, o país vai crescer em torno de 9% tanto em 2010 quanto em 2011.

Redução. Esse ritmo, que está nas projeções de boa parte do mercado, é espetacular, mas significa uma redução de dois pontos porcentuais em relação ao crescimento médio no período 2005 a 2008, que foi de 11%. Em 2009, a expansão foi de 8,7%, mas em plena crise global, e com queda no PIB mundial de 0,6%.

Nesta semana, foi divulgado o crescimento chinês de 10,3% no segundo trimestre, em relação ao mesmo período de 2009. Mesmo representando um número excepcional para qualquer país, o indicador veio um pouco abaixo das expectativas de uma corrente de analistas, e reforçou as inquietações sobre a possibilidade de um pouso um pouco menos suave da economia chinesa.

A redução do crescimento da produção industrial de 16,5% em maio para 13,7% em junho (em relação aos mesmos meses de 2009)também atiçou aquela preocupação.

Na verdade, a desaceleração chinesa está sendo comandada pelo próprio governo do país, em reação à ameaça de superaquecimento provocada pelo mega pacote de estímulo fiscal acionado depois da deflagração da crise global no fim de 2008. O temor de alguns analistas é que as autoridades econômicas do país errem a mão, e a freada acabe sendo maior que a planejada.

O governo chinês tomou medidas para brecar a economia em diversas áreas. Cavalcanti, do Itaú Unibanco, explica que já estava programada, no pacote de estímulo, uma taxa de crescimento dos investimentos governamentais em infraestrutura menor neste ano do que em 2009. Além disso, o crédito, que cresceu 32% do ano passado, tem uma meta de expansão para 2010 em torno de 17% a 18%, que parece estar sendo cumprida.

No setor residencial, para controlar uma ameaça de bolha, o governo adotou várias medidas restritivas entre dezembro e abril, que devem começar a ter impacto sobre o crescimento a partir do segundo semestre. Já se notam, observa o economista, impactos sobre o volume de vendas e sobre os preços de imóveis.

Situação desanimadora. Nos Estados Unidos, a situação é muito mais complicada e desanimadora do que na China. A divulgação na sexta-feira do índice preliminar de sentimento do consumidor Reuters/Universidade de Michigan de 66,5, em queda de quase dez pontos ante a leitura de 76 em junho, ajudou a derrubar os mercados de ações, já combalidos por balanços de empresas decepcionantes.

Foi o pior índice de confiança do consumidor desde agosto de 2009, em pleno ano da crise global.

"Os dados mais recentes dos EUA claramente estão mostrando um arrefecimento da recuperação", diz o economista Roberto Prado, também do Itaú Unibanco, e que segue a economia dos EUA. Ele nota que contribuem para frear a economia a conclusão de um ciclo de reposição de estoques, uma nova fraquejada no mercado residencial e a demanda externa afetada pelos problemas na Europa.

O Federal Reserve, banco central americano, reduziu a sua estimativa de crescimento do PIB americano em 2010, que saiu do intervalo entre 3,2% a 3,7%, na projeção de abril, para 3% a 3,5% agora em junho.

Um dos aspectos mais preocupantes da conjuntura americana atual é a taxa de desemprego, que estava em 9,5% em junho, ainda muito próxima do pico de 10,1% em outubro do ano passado. Em fevereiro de 2008, antes de a crise estourar, o desemprego era de 4,8%.

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