Kevin Lamarque / Reuters
Kevin Lamarque / Reuters

Economia global está em ‘momento delicado’ e é preciso fortalecê-la, diz Lagarde

Para diretora-gerente do FMI, mundo não está próximo de uma grande recessão, mas 70% da economia mundial deve registrar desaceleração em 2019

Ricardo Leopoldo, correspondente / Nova York, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2019 | 12h09

NOVA YORK, EUA - A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, afirmou nesta terça-feira, 2, que a economia mundial passa por um "momento delicado". Em um discurso proferido nesta manhã na Câmara de Comércio dos Estados Unidos, em Washington, ela disse que o mundo não está próximo de uma grande recessão, mas 70% da economia mundial deve registrar desaceleração em 2019, enquanto há dois anos 75% da economia do planeta apresentava alta do nível de atividade.

"O crescimento global está mais lento, em grande medida por causa da elevação de tensões comerciais e do aperto financeiro na segunda metade de 2018", destacou Lagarde. Por outro lado, a demanda agregada mundial está se beneficiando da normalização de política monetária "agora mais paciente" dos principais bancos centrais, liderados pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano), e pelo aumento de estímulos fiscais, como os ocorridos na China.

Para Lagarde, contudo, é "precária" a expectativa de que o crescimento mundial será retomado no fim deste ano, pois ele está "vulnerável" a riscos, como o Brexit, elevada dívida em alguns países e setores produtivos, "tensões com políticas comerciais" e uma percepção de desconforto nos mercados financeiros.

Na avaliação da diretora-gerente do FMI, este momento delicado pelo qual o mundo passa requer três áreas de ações de políticas: domésticas, internacionais e esforços coordenados para enfrentar os maiores desafios globais.

No caso de políticas domésticas, Lagarde defende que medidas macroeconômicas assegurem crescimento e estabilidade dos países. "A política monetária deve continuar acomodatícia onde a inflação está abaixo da meta e deve ancorar expectativas", aponta. Ela ressalta que flexibilidade nas taxas de câmbio deve ser utilizada, se necessário, para absorver choques. Na sua avaliação, o setor financeiro deve ser fortalecido e riscos devem ser reduzidos com a preservação de reformas regulatórias.

"A realidade é que muitas economias não estão resilientes o suficiente. Elevada dívida pública e baixas taxas de juros deixaram pouco espaço para agir quando a próxima desaceleração vier, o que ocorrerá inevitavelmente", afirmou Lagarde. 

Ela ressaltou que para muitos países isso implica em uso mais inteligente da política fiscal, ou propiciar o adequado equilíbrio entre crescimento, sustentabilidade da dívida e objetivos sociais, com redução de desigualdades, o que em muitos países requer dedicar atenção especial para jovens e mulheres.

Segundo Lagarde, existe uma percepção crescente de que há concentração de poder de mercado de poucas empresas gigantes. Ela disse que uma análise do FMI registrou que em economias avançadas esse fato provocou pouco efeito sobre investimentos, produção e na participação dos trabalhadores no Produto Interno Bruto (PIB) nas últimas duas décadas, um fenômeno presente em vários países, sobretudo com a evolução da economia digital. 

"Eu não digo que nós temos atualmente um problema de monopólio. O que eu falo é que devemos adotar medidas apropriadas para que não se torne um problema", comentou. Isso significa reduzir barreiras de entrada para que novas companhias ingressem em mercados e reformar arcabouços de competição corporativa.

Cenário mundial

No campo internacional, Lagarde apontou que muito deve ser feito para lidar com questões econômicas globais, como elevar regulações financeiras, melhorar a transparência de dívidas e atacar fluxos financeiros ilícitos. Contudo, nessa área de atuação ela ressalta que nenhum outro tema é maior do que o comércio mundial.

"Nós sabemos que, por muitas décadas, a integração comercial tem ajudado a aumentar a prosperidade, reduzir pobreza, ampliar novas tecnologias e reforçar a produtividade", afirmou a diretora-gerente do FMI. Ao mesmo tempo, ela também destacou que nem todos foram beneficiados por esse processo internacional, pois há distorções no sistema de comércio, que precisa ser reformado.

"Também sabemos que barreiras comerciais não são a resposta", disse Lagarde, Segundo ela, um novo estudo do FMI registrou que, ao analisar 180 países nas últimas 6 décadas, a integração comercial reforçou investimentos em fábricas, equipamentos e outras áreas de alta criação de empregos

De modo inverso, barreiras comerciais prejudicam o investimento e o emprego. Para ela, essa revelação tem "particular relevância agora, em um período no qual tensões comerciais podem prejudicar investimentos ainda mais e em um tempo no qual eles já estão fracos", o que requer que "sejamos cuidadosos."

Segundo Lagarde, o FMI analisou o que pode ocorrer "se subissem para 25% todas as tarifas das mercadorias comercializadas entre os EUA e a China", o que poderia reduzir o PIB americano em 0,6 ponto porcentual e diminuir em até 1,5 ponto porcentual o PIB do país asiático. "Estes são ferimentos autoinfligidos que devem ser evitados."

Para a diretora-gerente do FMI, historicamente o equilíbrio comercial bilateral tem sido dirigido por fatores macroeconômicos, não tarifas bilaterais. "Em outras palavras, a forma mais eficiente para reduzir déficit comercial bilateral é evitar tarifas porque tarifas em mercadorias de um país apenas desviam o fluxo comercial para outros países."

Lagarde ressalta que "ninguém vence uma guerra comercial" e é por este motivo que o mundo precisa trabalhar unido, inclusive para modernizar o sistema global de comércio e enfrentar questões relativas a subsídios de governos, propriedade intelectual e privacidade de dados, além de fomentar novos negócios para destravar o potencial de serviços e do comércio digital. Nesse contexto, ela defende melhorar o arcabouço internacional de impostos sobre corporações.

Para Lagarde, também são importantes parcerias para enfrentar desafios globais como problemas demográficos, imigração, riscos cibernéticos e aquecimento global.

Outro tema importante que Lagarde destaca é o combate mundial à corrupção. "O custo anual de subornos supera US$ 1,5 trilhão, perto de 2% do PIB global. Lavagem de dinheiro e financiamento de terrorismo são outras sérias dimensões do problema." Ela aponta que os países devem aceitar a responsabilidade sobre o que ocorre dentro de suas fronteiras, mas a corrupção é uma "praga internacional" que precisa de cooperação global para ser enfrentada. 

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