Economia informal interfere nos dados do Censo, diz Malan

O ministro da Fazenda, Pedro Malan, comentou hoje, durante entrevista exclusiva à Rádio Eldorado AM/FM, a contradição apontada nos novos dados do Censo 2000, divulgados ontem pelo IBGE. O instituto mostra que a renda do brasileiro na última década não acompanhou o ritmo do crescimento do consumo. O próprio presidente Fernando Henrique Cardoso estranhou alguns números que constam na pesquisa e disse que "ou não se consumiu tanto ou não se ganhou tão pouco".Para o ministro, existe a possibilidade de o crescimento da economia informal nos últimos anos ter influenciado os índice. "É uma possibilidade. Acontece que não me debrucei ainda, e vou fazê-lo junto de toda minha equipe, sobre os dados do Censo 2000. Mas é sabido que existe uma parte do PIB brasileiro ? valor total de bens e serviços produzidos ? que não é capturada pelas estatísticas, a chamada economia informal.Em vários estudos e estimativas do PIB da economia brasileira existe um acréscimo que é derivado das tentativas de estimar o significado desta economia que não é capturada pelas estatísticas. Sejam de impostos, sejam de atividades, sejam de rendimentos não declarados e coisa desta natureza, portanto, é importante que nós aprofundemos esta discussão no País".Eldorado - Já que nós temos uma boa porcentagem de uma economia por fora, então aqueles números macroeconômicos que dependem do PIB ficam realmente incompletos, defasados, não espelham a realidade, como a relação entre a dívida e o PIB, entre os déficits em relação ao PIB. Se o nosso PIB é muito maior, nós estamos melhores do que aparece nas estatísticas oficiais do governo? Malan - É bem possível que, feita a estimativa adequada desses fatos de renda não capturada pelas estatísticas, nós tenhamos um PIB efetivamente maior do que aquele registrado nas estatísticas com todas essas implicações a que você fez referência. Tem uma informação importante a esse respeito.A CPMF permite a checagem exatamente desta questão, porque ninguém pode se furtar a ter sua movimentação financeira registrada em algum momento, em alguma transação nesse processo. Estimativas preliminares mostram que as transações com a CPMF, para várias categorias e classes de renda são muito superiores do que a renda sugerida.Pesquisas de opiniãoEldorado - Desde a semana passada nós estamos vendo oscilações nas bolsas, na cotação do dólar e uma inquietação geral nos mercados por causa das avaliações negativas feitas por instituições financeiras sobre perspectivas e uma denúncia "requentada", como definiu o presidente Fernando Henrique. O senhor já disse que os candidatos à Presidência devem mostrar mais clareza nas propostas econômicas. Até que ponto o senhor acredita que a estabilização da economia é sólida, a prova de qualquer novo presidente? Malan - O Brasil é uma democracia consolidada e nós devemos olhar com naturalidade e serenidade o processo eleitoral e as eleições de outubro deste ano, assim como outros países também o fazem. Da mesma maneira devemos olhar com serenidade e tranqüilidade essas pesquisas que se sucedem a uma média de uma por semana - será assim ao longo dos próximos meses - e que mostram uma dança, um vaivém que não deve impressionar e não deveria levar a sobressaltos e excitações, como se elas já prefigurassem o resultado efetivo das eleições, que só será conhecido em outubro deste ano, e não antes.Pesquisas de opinião, por exemplo, na França. Nenhuma delas previu a derrota de Jospin e eliminação antes do segundo turno. Pesquisa é uma coisa, eleição é outra. E nós temos, ao longo dos próximos cinco meses, um amplo espaço para o aprofundamento do debate sobre esta questão.Denúncias de propinaEssa referência que você fez a matérias que apareceram numa revista semanal e repercutiram na mídia, eu acho que é um assunto absolutamente menor na ordem das coisas, não porque ele não deva ser investigado - ele já vem sendo objeto de investigação há alguns anos no Ministério Público, na Justiça, onde deve ter continuidade. Não vejo nenhuma razão para afetar o processo político.Propostas políticasPor último, na questão da clareza das propostas - que fiz referência na minha intervenção esta semana no Fórum Nacional - não é detalhe do programa de cada um. A única coisa que eu acho é que seria muito importante para o País e para seu futuro, e para os próprios candidatos neste momento, deixar claro, sem qualificações que anulam o objetivo, que tem, sim, o compromisso com a preservação da inflação sob controle.Que há um compromisso com a responsabilidade fiscal e com tudo isso que esta afirmação significa. Que tem um compromisso com respeito a contratos, com tudo isso que isso significa. Eu acho que estariam fazendo um grande serviço ao País se fizessem com clareza este compromisso. Que a população cobrasse quando visse seus programas se eles são compatíveis com a inflação sob controle e com a responsabilidade fiscal."Fiscalização Eldorado - Uma coisa é o compromisso e outra coisa é a realidade depois do governo. O presidente De La Rúa, enquanto foi candidato, toda a oposição argentina também assumiu compromissos, mas no governo, fizeram tudo ao contrário. Aumentaram o déficit, não respeitaram contratos, decretaram moratória. O que garante que um compromisso assumido antes das eleições signifique cumprimento desses compromisso?Malan- O que garante é o debate público, a vigilância da opinião pública e não esperar num novo governo, mas num processo de debate. Agora, quando um candidato apresentar determinado tipo de programa, nós todos - a sociedade, a população - deveríamos perguntar: Isso que ele está propondo é compatível com a Lei de Responsabilidade Fiscal, é compatível com a preservação da inflação sob controle; perguntar isso ao candidato e deixar que ele fale, diga que é. Essa é a coisa que eu acho que nós devíamos estar discutindo agora". Eldorado - O problema é o Lula, é a falta de compromisso ou é a vulnerabilidade da economia que deixa um problema tão grande?Malan- Eu não faço referência a apenas a um candidato, que você fez referência agora. Eu mencionei outro dia a proposta de um ex-governador do Estado do Rio de Janeiro que faria uma grande expansão do crédito, à taxa de 1 ponto percentual, através das instituições financeiras federais, e eu disse, isso é verdade, isso realmente representa um compromisso do ex-governador, caso seja eleito, isso significa necessariamente um enorme potencial de volta da inflação, por um lado, e de quebra da responsabilidade fiscal, significaria problemas para o Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e outros bancos."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.