Economia mundial: perspectivas e riscos

O cenário é favorável para o Brasil e, apesar de algumas questões importantes, sigo com um otimismo cauteloso

Claudio Adilson Gonçalez, O Estado de S.Paulo

31 Dezembro 2018 | 05h00

De modo geral, as premissas de meu cenário básico para a economia mundial no próximo ano são positivas. Certamente haverá redução do crescimento econômico nas principais economias (EUA, União Europeia, China e Japão), mas o risco de quedas bruscas ou mesmo de recessão me parece baixo.

Nos EUA, cujo PIB em 2018 deverá registrar crescimento de quase 3%, em relação a 2017, certamente haverá desaceleração para algo entre 2,0% a 2,2% de expansão, ritmo mais condizente com o potencial da economia. Fim dos impactos expansionistas da reforma tributária aprovada no final de 2017, aperto da política monetária e impactos negativos da guerra fiscal são os principais motivos dessa perda de fôlego.

Muitos analistas atribuem elevado risco de a economia norte-americana entrar em recessão em 2019. Se isso não ocorrer, no final do ano que vem este período de expansão alcançará 126 meses, passando para o topo do ranking (o mais longo até agora, de abril de 1991 a fevereiro de 2001, durou 120 meses).

Além dessa duração inusitada da expansão, há outro indicador que sustenta essa visão pessimista. Trata-se da inversão da inclinação da curva que expressa a taxa de juros em função do prazo dos títulos do Tesouro. Normalmente, as taxas de juros crescem conforme o prazo de vencimento dos títulos se alonga. Por exemplo, um título que vence daqui a dez anos deve pagar uma taxa anual de juros maior do que outro que vence em dois anos. A inversão dessa inclinação (prêmio de alongamento negativo) tem sido um bom indicador de antecedente de recessão. Atualmente esse prêmio está quase nulo e em breve pode se tornar negativo.

Mas essa causalidade entre a inversão da inclinação da curva de juros e a recessão não é uma lei gravada na pedra. Houve exceções e creio que estamos agora diante de uma delas. Fatores estruturais, como a redução da produtividade total da economia decorrente do envelhecimento da população (quanto menor a produtividade, menor será a taxa de juros de equilíbrio de longo prazo), excesso da poupança em relação à demanda de fundos para investimentos (saving glut), bem como o grande montante de títulos longos na carteira do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) contribuem para que as taxas longas não subam tão rapidamente quanto as curtas. Além disso, o Fed tem apertado os juros de curto prazo com mais intensidade do que o mercado previa, e isso também concorre para esta redução da inclinação da curva de juros.

A inflação americana está sob total controle, apesar dos baixos níveis de desemprego, como pode ser observado pelo moderado crescimento do custo unitário do trabalho. É muito provável que o Fed tenha de interromper, já no primeiro trimestre de 2019, o atual ciclo de elevação do juro básico.

China e União Europeia estão com suas economias em clara desaceleração, mas também não vejo sinais convincentes de recessão ou até mesmo de queda abrupta do crescimento chinês. A China vem promovendo, de forma eficaz, o chamado reequilíbrio, que consiste na gradual redução da participação do crédito no PIB e no deslocamento do eixo dinâmico do crescimento, dos investimentos para o consumo. Isso é necessário para evitar excesso de capacidade instalada e crise de inadimplência.

O cenário até agora exposto é favorável para o Brasil. Mas há riscos importantes, que tendem a provocar bastante volatilidade nos mercados financeiros. Entre eles, destacam-se a possibilidade de saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit) sem acordo, o agravamento das tensões políticas na França e na Itália, a deterioração da política fiscal nesses países e a radicalização da guerra comercial entre EUA e China. Também nesses pontos mantenho um otimismo cauteloso, mas a bola de cristal pode falhar.

*ECONOMISTA, DIRETOR-PRESIDENTE DA MCM CONSULTORES, FOI CONSULTOR DO BANCO MUNDIAL, SUBSECRETÁRIO DO TESOURO NACIONAL E CHEFE DA ASSESSORIA ECONÔMICA DO MINISTÉRIO DA FAZENDA

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