Economia mundial teme crescer

Economia mundial teme crescer

Há fantasmas assombrando por todos os lado a economia mundial. Dívidas contraídas principalmente para fazer frente à recessão, ao desemprego, desequilíbrio cambial, e até mesmo, acreditem, ao fantasminha da inflação. A impressão mais recente dos analistas estrangeiros é de que os países desenvolvidos - e alguns outros também - preferem a recessão, um pouco mais, do que um crescimento sustentado pelo aumento da dívida que surge como o inimigo maior a combater, mesmo à custa de um crescimento menor ou negativo.

Alberto Tamer, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2010 | 00h00

A coluna exagera? Não, e não está sozinha. Há alguns dias, editorial do Financial Times fazia a mesma afirmação, sem apresentar dados mais recentes, deste mês. Basta lembrar que neste ano, com a tímida exceção dos Estados Unidos na área do desemprego, nenhum país desenvolvido anunciou medidas de peso para estimular o crescimento. Nenhum.

Economia mundial. Parou? Pode-se dizem que sim. Levantamento tradicional e sistemático feito pela equipe da revista britânica The Economist confirma. E com dados recentes, deste ano. Está no número desta semana. Da compilação de dados de 50 países, apenas dez registraram crescimento. Mas a maioria de pequeno peso econômico, com exceção da China. Aí estamos nós, com o Economist registrando mais 4,8%, A Polônia, 3,1%, Austrália, 2,7%, Hong Kong, 2,6%, Índia, 6%, Indonésia, 5,4%, Cingapura, 3,5%, Malásia, 4,5%. Os tigres asiáticos apontam para 6% em média, com destaque de Taiwan, 9,2%. Mas a soma dos PIBs de todos esses países é pequena e eles têm pouco representatividade na economia mundial. Ao lado do índice de crescimento do PIB de todos os outros, desenvolvidos ou não (mais de 50% do PIB mundial), está o sinal negativo (-), mostrando uma economia mundial estagnada. (O leitor pode ter livre acesso a esses dados no site economist.com.) E as análises seguem o mesmo tom.

Até a China. Entre as grandes economias, até mesmo a China - que para nós não é mais país emergente, pois age com o voluntarismo de país rico - está contendo o crédito, administrando os juros, para desaquecer a economia, que cresce em torno de 10%, Só que seu fantasma é outro. É o desequilíbrio político interno. Está pensando agora no "bem-estar social" de uma população desatendida e pobre de 800 milhões de pessoas que vivem à margem do progresso alucinante de algumas cidades.

Vem outra crise aí! Apavorada por não ter previsto a crise que surgia, acreditando que o sistema financeiro internacional saberia resolver sozinho os seus problemas - até Greenspan afirma que acreditou nisso! - está com medo de novos choques, novos fantasmas. Agora, vai ser a dívida que fizemos para chegar até aqui, vocês vão ver! Não, não é só a divida. São os estímulos fiscais para reanimar a demanda, mesmo os que pesam pouco no orçamento. Nas reuniões internacionais todos concordam verbalmente que é preciso mantê-los, mas não fazem nada, de fato, nesse sentido. Dúbio, o FMI afirma que não é hora de mexer nos incentivos, é prematuro, mas alerta para o endividamento dos Estados... Cuidado! Esse crescimento não é sustentável.

O que é então? Não diz, em suas análises. Fala em equilíbrio, que, na verdade, é manter o status quo, uma convivência distante com os fantasmas dos déficits fiscais, comerciais, da formação de novas dividas, mesmo que seja feita pela "boa causa". Vamos ser medíocres, digamos, PIB mundial de 2,5% ou 3%, (abaixo os desenvolvidos, viva os emergentes!), mas vamos crescer de forma saudável, equilibrada...

As estatísticas levantadas pelo Economist e os dados da OCDE apontando para PIBs negativos em quase todos os países, neste ano, mostram que esse tem sido o caminho seguido. Nem mesmo para conter o desemprego eles se animam.

Em abril, os líderes do mundo estarão reunidos novamente. Muitos "Gês" ao mesmo tempo. Obama surge mais fortalecido como único líder entre os não líderes, mas o cenário que se desenha hoje é pouco animador. O mundo está de ressaca da bebedeira que tomou sem saber, não luta de verdade nem para conter o desemprego, e não vai abrir garrafa nenhuma tão cedo.

Resumindo, vamos ter uma economia medíocre em 2010. Bem, nós, não. Eles. Nós vamos crescer aí uns 5,5%. O nosso fantasma é outro. E vocês sabem muito bem qual é...

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.