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Economia mutilada

Números áridos traduzem-se em tragédias humanas - moradias perdidas, carreiras destruídas e jovens que não conseguem dar início a uma vida própria

Paul Krugman, do Teh New York Times, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2013 | 02h14

Cinco anos e 11 meses se passaram desde que a economia dos Estados Unidos entrou em recessão. Oficialmente, essa recessão acabou em meados de 2009, mas ninguém afirmaria que estamos testemunhando algo parecido com uma recuperação plena. O desemprego oficial permanece elevado e seria muito mais se tantas pessoas não tivessem saído do mercado de trabalho. O desemprego a longo prazo - o número de pessoas que estão fora do mercado formal de trabalho há seis meses ou mais - é quatro vezes maior em relação ao que era antes da recessão.

Os números áridos traduzem-se em milhões de tragédias humanas - moradias perdidas, carreiras destruídas, jovens que não conseguem dar início a uma vida própria. E, durante todo esse tempo, muitas pessoas imploraram por medidas que dessem prioridade total à criação de empregos. No entanto, seus apelos foram sufocados pelas vozes da prudência convencional: não podemos gastar mais com empregos, porque isso implicaria em um maior endividamento. Não podemos nem sequer contratar trabalhadores desempregados e pôr para frutificar poupanças ociosas construindo estradas, túneis, escolas. Não nos preocupemos com o curto prazo, precisamos pensar no futuro! A triste ironia é que, não solucionando a questão do desemprego, acabamos sacrificando também o nosso futuro. O que hoje em dia vem sendo considerada uma política eficiente é, de fato, uma forma de automutilação econômica, que enfraquecerá os Estados Unidos por muitos anos por vir. Ou pelo menos é o que afirmam os pesquisadores do Federal Reserve (Fed, banco central americano) e, sinto dizer, que acredito neles.

Na realidade, estou escrevendo este artigo depois da grande conferência sobre pesquisa realizada anualmente pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). O tema do encontro deste ano são as causas e as consequências das crises econômicas, e o tema das apresentações varia do que aconteceu de bom (como a surpreendente estabilidade da América Latina nos últimos anos) e o que aconteceu de ruim (a atual crise na Europa). Contudo, será bastante difícil que o documento de maior sucesso na conferência seja o que destaca o que aconteceu de realmente ruim: a demonstração de que, tolerando um elevado desemprego, infligimos um enorme dano às nossas perspectivas de longo prazo.

De que modo? Segundo o documento (com o título despretensioso Aggregate Supply in the United States: Recent Developments and Implications for the Conduct of Monetary Policy), a crise aparentemente interminável que nos aflige provocou danos a longo prazo de inúmeras maneiras: os trabalhadores que estão desempregados há muito tempo acabam sendo considerados impossibilitados de encontrar trabalho; as empresas reduzem seus investimentos em razão das vendas fracas; novas empresas deixam de ser fundadas; e, para economizar, as empresas existentes deixam de investir em pesquisa e desenvolvimento.

Além disso, os autores - um deles diretor de pesquisa e estatística do Conselho do Fed, de modo que não estamos falando de acadêmicos desconhecidos - traduziram esses efeitos em números, e a situação é assustadora. Eles sugerem que a debilidade econômica já reduziu o potencial econômico dos EUA em cerca de 7%, o que significa que ela nos empobrece em mais de US$ 1 trilhão ao ano. E não estamos falando dos prejuízos registrados em um único ano, estamos falando de danos a longo prazo: US$ 1 trilhão ao ano, durante muitos anos.

Essa estimativa é o produto de complexas análises de dados, o que se pode é polemizar a respeito dos detalhes. Talvez estejamos perdendo apenas US$ 800 bilhões anuais. Mas a evidência esmagadora é que, deixando de tratar de maneira eficiente o desemprego em massa - deixando inclusive de considerar o desemprego uma das principais prioridades -, infligimos um dano imenso a nós mesmos a longo prazo.

E essa, repito, é a triste ironia, porque uma das principais razões pelas quais nos preocupamos tão pouco com o desemprego é toda a pregação dos que se encarregaram de nos admoestar sobre a questão do déficit, revestindo-se do manto da responsabilidade a longo prazo e procurando de todas as maneiras fazer com que ela fosse identificada pelo eleitorado com a obrigação de manter baixa a dívida pública.

O que não tem o menor sentido. Como alguns de nós procuraram explicar, a dívida evidentemente pode causar problemas, mas não torna o país mais pobre, porque é dinheiro que devemos a nós mesmos. Quem afirma que estamos tomando dinheiro emprestado dos nossos filhos não fez as contas direito.

Sem dúvida, a dívida pode nos tornar mais pobres indiretamente, quando os déficits contribuem para elevar os juros e, desse modo, desencorajam o investimento produtivo. Mas não é isso que está acontecendo. Ao contrário, os investimentos são baixos em razão da debilidade da economia. E uma das coisas mais importantes que contribuem para que a economia continue fraca é o efeito depressivo dos cortes dos gastos públicos - principalmente, aliás, os cortes nos investimentos públicos -, tudo justificado pela alegação de que, desse modo, protegemos o futuro da ameaça tremendamente exagerada de um endividamento excessivo.

Haverá alguma chance de reverter esses danos? Os pesquisadores do Fed são pessimistas e, mais uma vez, acho que podem estão certos. Com toda a probabilidade, os EUA levarão décadas pagando pelas prioridades equivocadas dos últimos anos.

É uma história realmente terrível: a história dos danos que provocamos a nós mesmos, agravados pelo fato de terem sido perpetrados em nome da responsabilidade. E os danos continuam ocorrendo enquanto falamos. 

 

(Tradução de Anna Capovilla)

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