Sérgio Castro|Estadão
Sérgio Castro|Estadão

‘Economia não sarou, mas parou de doer’

Executivo acredita que a economia ainda leva tempo para se recuperar, mas diz que governo está no caminho certo

Entrevista com

João Carlos Brega, presidente da Whirlpool para a América Latina

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2017 | 05h00

Depois da queda 10% nas quantidades vendidas de fogões, geladeiras e lavadoras em 2016, que atingiram o menor nível em seis anos, o mercado de eletrodomésticos da linha branca deve se estabilizar este ano, segundo João Carlos Brega, presidente da Whirlpool para América Latina, líder no País com as marcas Brastemp e Consul. Tanto em número de funcionários como em volume de estoques, ele diz que a empresa está ajustada ao ritmo mais fraco da economia. A prova disso é que a Whirlpool como um todo não planeja férias coletivas para o carnaval, como ocorreu nos dois últimos anos. Brega acredita que a economia deve bater no piso neste trimestre e que uma recuperação mais consistente só deve vir no ano que vem. No momento, ele se diz otimista, mas com os pés no chão. “A economia está assim: sarou? Não, mas parou de doer.” A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como o sr. avalia o momento atual da economia brasileira?

Não temos dúvida de que a economia como um todo bateu no piso, tocou o chão no primeiro trimestre de 2017. Se a economia fosse representada por um ônibus e cada setor por um passageiro, eu diria que o ônibus brecou, mas alguns passageiros (setores) vão continuar caindo mais. No entanto, como um todo, batemos no piso.

O que deve acontecer daqui para frente?

Daqui até o segundo semestre do ano que vem, na nossa opinião, vai parar de piorar. O crescimento consistente só virá mesmo a partir do segundo semestre de 2018.

O governo vai liberar os recursos das contas inativas do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e os juros básicos (Selic) foram reduzidos. Isso pode puxar o crescimento?

Não. Isso ratifica que a economia vai parar de piorar. O desemprego, que é uma variável muito importante, hoje está muito alto e ainda deve ter uma pequena piora antes de se estabilizar. Esses recursos do FGTS, num primeiro momento, serão usados para conter a inadimplência, para a pessoa comer e suprir as prioridades. Essa demanda dormente por produtos de consumo vai vir quando tiver a recuperação da confiança, e isso leva tempo. Mas insisto: o governo está fazendo as coisas certas. Houve reversão nas expectativas de inflação, o gasto desenfreado do governo será reduzido, começamos uma discussão madura de atualização e modernização da legislação trabalhista e já se fala em medidas microeconômicas. O governo tem uma série de objetivos que foram atingidos. Mas, pela nossa ansiedade, acabamos não vendo esses progressos.

Como foram as vendas em 2016 e neste início de ano?

O mercado de linha branca caiu 10% em 2016, mas a nossa queda foi menor do que 10%, nós ganhamos mercado. Não tenho o número fechado de janeiro para falar. Há indicações de que este janeiro não foi melhor do que o ano passado, mas também não foi um desastre. O ano de 2017 terá crescimento praticamente zero para o mercado de linha branca.

A empresa está ajustada para esse menor ritmo da economia?

Estamos ajustados para o cenário que a gente espera para até 2018. Isso não significa que não estejamos atentos ao custo e muito restritivos na contratação. O funcionário que sai não é necessariamente reposto. Tínhamos cerca de 22 mil trabalhadores em 2013 e hoje estamos com 18 mil funcionários. Ao longo desses anos, o ajuste foi feito por meio do “turnover” natural. Hoje, de forma coletiva, não existe parada planejada da produção no carnaval de 2017. Nos últimos dois anos, paramos no carnaval. O fato de não darmos férias coletivas neste carnaval mostra que estamos com estoques ajustados. Em termos relativos, a empresa está muito bem: liderança de mercado consolidada e linha de produtos atualizada. O que a gente precisa é a parte quantitativa.

O Brasil perdeu participação na receita global do grupo?

Sim. Éramos 30% em 2013 e hoje (2016) somos 17% (as vendas líquidas no mundo somaram US$ 20,7 bilhões entre janeiro e setembro do ano passado, ante US$ 20,9 bilhões no mesmo período de 2015).

E os investimentos?

Podemos crescer sem necessidade de investimento em capacidade. Mas não paramos de investir em produto e marca, entre 3% e 4% do faturamento. Estamos inaugurando a Casa Brastemp, que é um espaço para o consumidor experimentar os produtos. Esse projeto está olhando para frente. Temos a foto e o filme. A foto hoje não está legal. Mas o País continua com 200 milhões de habitantes. O nosso consumidor continua lá. Há demanda por reposição e demanda planejada. Com a crise isso foi adiado.

A Eletros (associação da indústria de eletroeletrônicos) fala em redução permanente do Imposto sobre Produtos Industrializados ( IPI) para a linha branca. O sr. concorda?

Tudo em relação ao IPI deve ser permanente. O que a Whirlpool pleiteia sempre é a redução da carga tributária. Fogão e lava-roupas são bens essenciais. Como se pode ter uma alíquota de 10% sobre um bem essencial? Houve em uma determinada época estímulos pontuais que talvez tenham cumprido o seu papel naquele instante. A lição aprendida pela sociedade e pelo próprio governo é que estímulos pontuais são válidos quando a economia está organizada. Estimular o consumo sem estar preparado é voo de galinha.

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