Economia, o curto e o longo prazos

As perspectivas de curto prazo para a economia brasileira estão diretamente afetadas pelo desempenho limitado do crescimento da atividade e pela pressão inflacionária, o que tem restringido o investimento. Os dados do primeiro trimestre das contas nacionais apontam para um investimento, indicado pela Formação Bruta de Capital Fixo, que mede as inversões em construção civil e máquinas e equipamentos, da ordem de apenas 17,7% do Produto Interno Bruto (PIB). Trata-se de um nível claramente insuficiente e que, em função da contaminação do ambiente de curto prazo, vem se reduzindo ao longo dos últimos trimestres.

Antonio Corrêa de Lacerda, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2014 | 02h05

No entanto, chama a atenção o destaque que o País recebe como um dos principais absorvedores de investimentos diretos estrangeiros. Grande parte das empresas que já operam localmente também tem planos de ampliar o seu investimento. A efetivação dos projetos planejados, entretanto, só ocorrerá com uma retomada da confiança - fator-chave para que isso ocorra. A percepção de um quadro de semiestagnação da economia é confirmada pelos mais recentes dados sobre o nível de atividade, assim como os indicadores antecedentes do segundo trimestre, que apontam para uma continuidade do baixo ritmo e razoável probabilidade de queda. O cenário tem levado as empresas a privilegiarem a geração de caixa, procrastinando os desembolsos para as novas inversões.

Um outro aspecto relevante é quanto à perda de competitividade local. O International Institute for Management Development (IMD) e a Fundação Dom Cabral divulgaram a atualização do Índice de Competitividade Mundial 2014. Segundo o estudo, o Brasil perdeu posições, ocupando atualmente o 54.º lugar no ranking que contempla 60 países. Fatores como deficiências de infraestrutura e logística, baixa qualidade da educação e excessiva burocracia continuam prejudicando a nossa performance. A perda de competitividade prejudica não apenas o desempenho das exportações, mas também a produção local, que perde espaço para as importações.

No entanto, apesar dos inegáveis problemas, os cenários de curto e de longo prazos denotam uma clara dicotomia. Enquanto em uma visão mais imediata o clima é de incerteza e de cautela, no longo prazo as empresas veem grandes possibilidades de ampliação de suas atividades. O Brasil aparece em 5.º lugar no Índice de Confiança para Investimento Direto Estrangeiro, que busca sondar as intenções de investimentos futuros das empresas mundo afora. Só somos superados por EUA, China, Canadá e Reino Unido. É a mesma posição obtida no ano anterior com base nos investimentos diretos estrangeiros efetivamente realizados, segundo relatório anual da Unctad. No mercado doméstico, levantamento realizado pelo BNDES, com base nas informações colhidas diretamente nas empresas, em pesquisa proprietária, os investimentos planejados para o período de 2014-2017 atingem um montante de R$ 4.075 bilhões, considerando os setores indústria, infraestrutura, construção civil, serviços e agropecuária. O total denota um crescimento de 28% em relação ao período anterior do levantamento, de 2009-2012.

Ou seja, o principal desafio para os gestores da política econômica continua sendo criar condições favoráveis de competitividade, previsibilidade e confiança para que o potencial do mercado doméstico e os investimentos planejados se concretizem. Somente um quadro mais estável de inflação, contas públicas, setor externo, transparência e clareza de regras poderá fazer com que a expectativa e o clima para investimentos se tornem mais favoráveis e possam reduzir os gargalos ao crescimento mais robusto e sustentado nos próximos anos.

Daí a importância, além dos pontos já elencados, de o governo incrementar o diálogo com os agentes econômicos. Isso por si só não é capaz individualmente de reverter as expectativas negativas. Mas trata-se de elemento importante, tanto para o setor privado entender os objetivos e a estratégia da política econômica quanto para o governo conhecer mais da lógica das decisões empresariais.

* Antonio Corrêa de Lacerda é economista, doutor pelo IE/Unicamp, professor da PUC-SP e consultor

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