Economia patina mesmo com pacotes

Economistas criticam hiperatividade do governo e defendem medidas estruturais, como reforma tributária e redução do custo da energia

Iuri Dantas e Fernando Dantas, de O Estado de S. Paulo ,

30 de junho de 2012 | 14h00

Surpreendido com o impacto da crise internacional na economia brasileira, o governo não conseguiu calibrar as dezenas de medidas de estímulo ao tamanho do problema. Como consequência, as estimativas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) estão em queda desde o início do ano. Hoje, o Banco Central (BC) já projeta expansão de apenas 2,5%, menor que os 2,7% de 2011.

As medidas tomadas pela equipe da presidente Dilma Rousseff, a primeira economista a comandar o País, esbarram, ainda, no alto endividamento das famílias e no receio dos empresários em investir.

Diante do cenário adverso lá fora e do desânimo de consumidores e empresas no País, será difícil evitar um crescimento pífio este ano. A projeção média do mercado já caiu para 2,26%.

"Está havendo hiperatividade, o governo precisa de calma", diz o economista Luiz Eduardo de Assis, ex-diretor do BC. Ele lembra que o governo tomou uma série de medidas para depreciar o câmbio, como o IOF em captações externas. Mas este foi parcialmente revertido recentemente, por causa da forte desvalorização. No caso da desoneração da folha, ela depende do produto, o que aumenta a complicação burocrática das empresas.

"Esse tipo de medida não ajuda a criar o ambiente de estabilidade necessário aos investimentos", diz Assis.

Segundo fontes próximas ao governo, mesmo na equipe econômica há dúvidas sobre o excesso de intervenção na economia. Alguns dos seus membros acham que o efeito é pequeno, e que as frentes mais promissoras para acelerar o investimento seriam a reforma tributária e a redução do custo da energia.

Para Rodrigo Zeidan, professor de Economia da Fundação Dom Cabral, "o governo está sendo surpreendido com dados econômicos cada vez piores". Ele defende a criação de condições para o crescimento de longo prazo: "Preferia conviver com um PIB mais fraco com medidas estruturais, como essas reformas que a gente não faz desde o governo retrasado".

Na quarta-feira, o governo anunciou novo pacote de medidas para estimular a economia, desta vez focado em compras públicas de máquinas, veículos e equipamentos de saúde e educação. As medidas, que aumentaram em R$ 6,6 bilhões as despesas com compras governamentais, visam impulsionar o investimento público.

"Precisamos ver se o investimento vai de fato se efetivar, pois o que a gente viu até agora foram intenções", argumenta Mauro Rochelin, professor de economia do Ibmec.

Um dos principais componentes do fraco desempenho da economia neste ano são os investimentos, que caíram 2,1% no primeiro trimestre ante igual período de 2011. Há previsões, como a do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), de que os investimentos terão crescimento nulo este ano.

Carlos Kawall, economista-chefe do banco de investimentos J. Safra e ex-diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), acha que as medidas de redução tributária que têm sido tomadas não são prejudiciais. "A carga tributária é muito alta, e é preciso fazer a desoneração nos impostos que distorcem mais", diz.

Mas, para Kawall, o mais importante seriam mudanças profundas no sistema tributário e a retomada das concessões de infraestrutura ao setor privado: "É preciso dar ao setor privado horizontes mais de médio e longo prazo, para que tenha condições de aumentar as decisões de investimento".

Fernando Sampaio, economista e sócio-diretor da LCA Consultores, diz que o desaquecimento da economia provocado pela crise internacional exige medidas pontuais. "A situação seria mais difícil se o governo se omitisse."

Sampaio lembra que o Brasil e outros países de perfil semelhante, diferentemente das nações ricas, não "queimaram todos os cartuchos" na primeira rodada da crise, depois do colapso do Lehman Brothers, em setembro de 2008. "Algumas medidas atuais são reedições, idênticas ou similares à medidas que tiveram efetividade maior na virada e ao longo de 2009".

Segundo o economista, a penetração maior de geladeiras, lavadoras de roupa e automóveis na casa do brasileiro, somada ao alto comprometimento da renda para pagamento de dívidas, limitam o impacto dos cortes de impostos adotados desde o final do ano passado.

Faxina. Os investimentos públicos, propulsores da economia, também foram freados no governo Dilma por motivos políticos, ressalta Rochelin, do Ibmec: "Os ministérios responsáveis pelos grandes investimentos, como Transportes e Cidades, tiveram mudança de comando, o que atrasou os projetos".

Além da faxina da presidente nestes ministérios, a empresa com maior volume de contratos do PAC, a Delta Construções, entrou com pedido de recuperação judicial neste ano depois das denúncias de envolvimento da empresa no esquema do contraventor Carlinhos Cachoeira, alvo de uma CPI no Congresso.

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