Economia peruana atrai grupos brasileiros

Crescimento 'chinês' e inflação sob controle garantem investimentos com bom retorno

FÁBIO ALVES, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2012 | 02h05

A subsidiária peruana do Grupo Tigre deverá registrar neste ano um aumento de 20% do seu faturamento, a maior taxa de crescimento entre os dez países, incluindo o Brasil, onde o maior fabricante brasileiro de tubos e conexões tem operações. Tamanho êxito está levando o grupo a investir US$ 32 milhões no país vizinho em 2013, incluindo a construção de uma nova fábrica na região da capital Lima.

Ao longo dos últimos dez anos, o Peru juntou-se ao Chile como o mais novo modelo econômico de sucesso na América do Sul e está atraindo cada vez mais investimentos de empresas brasileiras, em busca de um mercado consumidor robusto e em rápida expansão.

"O sucesso do Peru é resultado de uma combinação de fatores: uma economia estável, inflação sob controle e juros que permitem fazer investimentos com bom retorno, além da disponibilidade grande de crédito", disse à Agência Estado o presidente da Tigre, Evaldo Dreher. A unidade peruana, em operação desde janeiro de 2008, já é responsável pelo quarto maior faturamento do grupo.

O Produto Interno Bruto (PIB) peruano deverá crescer 6% neste ano, segundo estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI), a maior taxa de expansão entre os países sul-americanos. De 2001 a 2011, o país cresceu em média 5,8% ao ano, enquanto a inflação média anual foi de 2,5%, conforme dados do banco central daquele país. O investimento bruto fixo da economia peruana passou de 18,6% do PIB em 2001 para 24,1% em 2011, depois de atingir o pico de 25,9% em 2008. O investimento estrangeiro direto, que atingiu 4,3% do PIB em 2011, deve ficar ao redor de 4% neste ano.

"O Peru fez ajustes macroeconômicos muito importantes ao longo da última década", diz o economista-chefe para América Latina do banco HSBC, André Loes. "O país tem um ambiente de negócios muito acolhedor e uma economia bastante competitiva com custos baixos de produção, além de perseguir contas fiscais equilibradas, com superávits nominais há vários anos". Além de escolhas acertadas de política econômica, o Peru foi beneficiado por um ciclo favorável de preços e de demanda de commodities.

Em momentos de desaceleração da economia global e um esfriamento da demanda por commodities, um maior grau de abertura da economia e um ambiente mais acolhedor aos negócios deixaram o país andino mais resiliente aos efeitos negativos da crise mundial, ressaltou Loes, citando, como exemplo, a boa colocação do Peru no ranking do Banco Mundial de países onde é mais fácil a abertura de empresas e a realização de operações comerciais. No relatório "Doing Business" de 2012, do Banco Mundial, o Peru ficou em 41º lugar entre 183 países onde o ambiente regulatório, tributário e burocrático é mais ou menos acolhedor para a implantação e operação de novas empresas. Na América Latina, apenas o Chile teve uma colocação melhor: 39º lugar. O Brasil ficou em 126º.

Além dos tradicionais setores de mineração, energia e infraestrutura, que já contam com investimentos da Petrobrás, Vale e Odebrecht, a economia peruana vem atraindo empresas brasileiras de diversos setores, incluindo consumo e serviços. No ano passado, o volume total de investimento de empresas brasileiras no país andino somou US$ 5 bilhões. A Fitesa, controlada pela holding Petropar, está investindo US$ 50 milhões na construção de uma fábrica em Lima para produzir material de polipropileno usado na indústria de fraldas e absorventes femininos, roupas médicas e outras aplicações industriais, afirma o gerente da Fitesa no Peru, Jameson Miguel. A fábrica deverá entrar em operação em janeiro de 2013, disse Miguel. "A região andina tem apresentado crescimento de mercado com perspectivas muito boas. O Peru, além do seu potencial mercado interno, possui uma localização geográfica adequada à estratégia da Fitesa". O Itaú BBA também iniciou estudos para transformar o escritório de representação no Peru em um banco de investimentos.

"O capital brasileiro é diferente do da China, dos Estados Unidos e de países europeus porque desenvolve projetos industriais e não só visa explorar matérias-primas, por isso contribui mais para desenvolver uma cadeia produtiva no Peru", diz o conselheiro comercial do governo peruano no Brasil, Antonio Castillo. E o fluxo não é só numa direção. Segundo Castillo, além de operações no setor de mineração por parte do Grupo Brescia e no setor de bebidas não alcoólicas das Indústrias San Miguel, haverá um aumento significativo de investimentos peruanos no Brasil em 2013. Castillo estima que ao menos quatro empresas peruanas, entre elas uma indústria farmacêutica e um fabricante de óleo de soja, devem começar operações no Brasil em 2013, desembolsando um total de US$ 180 milhões.

Pobreza. Ao completar um ano de governo em julho de 2012, o presidente Ollanta Humala prometeu distribuir melhor o resultado do forte crescimento econômico e reduzir a pobreza no país para 15% da população. Como representante nacionalista, Humala sofreu a desconfiança por parte dos investidores internacionais, que chegaram a temer uma reversão das políticas adotadas pelo seu antecessor, Alan García. Humala surpreendeu e manteve o econômico com medidas pró-mercado, mas decepcionou a população pobre que esperava mais na área social.

"Graças a essas políticas macroeconômicas pró-mercado que os vários governos vêm adotando há mais de uma década, o Peru tem conseguido atrair capital estrangeiro", diz Alejandro Arreaza, economista do banco Barclays. "Mas os conflitos sociais são a maior preocupação dos investidores. Essa é uma área que precisa ser resolvida para que projetos de investimentos não sejam afetados".

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