Economia pós-impeachment

Retomada depende da combinação virtuosa de uma série de fatores

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2016 | 05h00

O desfecho do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff remove uma grande incerteza, mas não todas que foram se acumulando desde que foi afastada e o vice Michel Temer assumiu, interinamente, o governo. O fim da interinidade tende a redobrar expectativas de que os programas de ajuste – principalmente no campo fiscal, mas também no estímulo ao investimento – avancem com mais facilidade e que, assim, a recuperação da economia ganhe aceleração. Mas os riscos de que frustrações atropelem esse cenário não são pequenos.

Expectativas otimistas e índices de confiança positivos são sem dúvida elementos cruciais para o reequilíbrio e o relançamento da economia. É quase intuitivo, contudo, não serem sozinhos suficientes para sustentar um ciclo de crescimento duradouro. 

“Os indicadores de expectativa melhoraram muito nos últimos meses, mas hoje a gente ainda não consegue ser otimista com a velocidade da recuperação”, pontuou a economista Silva Mattos, coordenadora técnica do Boletim Macro do Ibre/FGV, à colega Alexa Salomão, em entrevista no Estado deste domingo.

As expectativas de que, com a remoção de Dilma, a economia voltaria aos trilhos alimentaram, nos últimos cinco meses, uma extraordinária escalada das projeções de crescimento para 2017. No Boletim Focus, que reúne as previsões de analistas de mercado, a variação do PIB, no ano que vem, avançou, nesse período, de 0,3% a 1,23% – e ainda pode ir um pouco além, nas próximas semanas. O que mais chama a atenção nessa dança de números é a amplitude do intervalo das previsões para o comportamento do nível de atividades em 2017.

No universo dos analistas de conjuntura, convivem, no momento, os que apostam em crescimento de até 2,5% ou mesmo 3,0%, já em 2017, com outros que ainda não conseguem enxergar além da estagnação ou de uma expansão modesta, circunscrita a 0,5%, depois de um recuo superior a 7,0% no biênio 2015/2016. No meio da escala está o próprio governo, cuja equipe econômica elevou recentemente suas estimativas de crescimento econômico, no próximo ano, de 1,2% para 1,6%.

Essas discrepâncias evidenciam não haver ainda consenso sobre os rumos da economia pós-impeachment. A perspectiva de que os ajustes ganhem velocidade, adotada pelo grupo que prevê maior aceleração futura do crescimento, é contraditada pelos que se mantêm mais céticos quanto a essa possib00000ilidade, pelas dúvidas não só em relação às resistências que as correções propostas possam enfrentar no Congresso, mas também quanto às restrições que a realidade econômica possa impor.

Levantamento do Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, com líderes de bancadas na Câmara dos Deputados, mostra que o governo Temer não reúne, no momento, apoio suficiente para aprovar o congelamento em termos reais do teto de gastos públicos, base do programa oficial de reequilíbrio fiscal. O resultado do levantamento não significa que o teto de gastos corre risco de ser rejeitado, mas indica que haverá dificuldades em sua aprovação e que a hipótese de que venha a ser em alguma medida desfigurado não pode ser descartada. 

Existem outras pedras e pontas soltas, de caráter mais estritamente econômico, no caminho de uma recuperação da economia no prazo curto do complemento do atual mandato presidencial até 2018. A lista inclui taxa de juros doméstica e internacional, câmbio, absorção de estoques, redução do endividamento geral, êxito do programa de concessões, e não se esgota por aí.

Apontado como aquele elemento da demanda agregada com mais chance de puxar o crescimento, enquanto o desemprego aumenta, contraindo consumo e crédito, o investimento é um bom exemplo do que está em jogo na economia pós-impeachment. Ele depende de uma complicada combinação virtuosa de vários desses fatores para dar o ar da graça.

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