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Economia precisa esfriar mais, diz BC

Diretor do BC diz que medidas de contenção de crédito surtiram efeito, mas a economia tem de desacelerar mais para conter a inflação

Renato Andrade, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL / RECIFE

O Banco Central está insatisfeito com o ritmo de expansão da economia brasileira. Apesar de considerar que o comportamento da atividade no início deste ano é mais fraco do que em 2010, o BC avalia que o País ainda não está numa velocidade adequada para manter a inflação em patamar moderado.

"Certamente a economia está andando hoje num ritmo menor do que estava em 2010. A pergunta é: Isso é suficiente? Minha resposta é não", disse ontem, no Recife, o diretor de Política Econômica do BC, Carlos Hamilton Araújo. De acordo com ele, a partir da segunda metade do ano, as medidas adotadas até agora para frear o crescimento excessivo do crédito e trazer a inflação de volta ao nível de 4,5%, em 2012, vão gerar efeitos mais fortes.

Entre as medidas adotadas, Carlos Hamilton citou a elevação da taxa básica de juros (Selic), o aumento do dinheiro que os bancos devem manter parado no BC (depósitos compulsórios) e o "esforço" do governo em controlar a expansão do gasto público. "Tudo isso caminha na mesma direção de conter a demanda agregada, mas existe uma defasagem entre a adoção das medidas e seus impactos na atividade e na inflação."

Compromisso. O diretor do BC afirmou que, se for identificada a necessidade de adotar novas medidas de cunho prudencial, como ocorreu no fim do ano passado, elas serão tomadas. Ainda assim, Carlos Hamilton frisou que o Comitê de Política Monetária (Copom) deixou claro, em sua última reunião, que o ciclo de aperto dos juros será "suficientemente prolongado" para trazer a inflação de volta ao centro da meta no próximo ano. "O compromisso é com a inflação na meta em 2012. Não é em torno da meta, é em 4,5%", disse.

Hamilton fez questão de explicar que as chamadas medidas macroprudenciais funcionam como uma "força auxiliar" ao esforço das ações convencionais de política monetária. Em outras palavras, os entraves à expansão do crédito colaboram, mas não substituem o aumento da taxa básica de juro para conter a inflação e trazê-la de volta ao nível desejado.

O desempenho fiscal do setor público também tem sua parcela de contribuição na tarefa do BC de domar a inflação. Segundo Carlos Hamilton, o resultado da arrecadação de tributos no mês passado indica que de janeiro a abril a economia para o pagamento de juros da dívida pública (superávit primário) deve ter somado mais da metade da meta fixada para todo o ano, que é de R$ 117,9 bilhões. "Isso é um desenvolvimento importante, sem dúvida, no que diz respeito ao assunto inflação."

IBC-Br. Mesmo dizendo que o País passa por um processo de desaceleração, o próprio BC mostrou anteontem que a atividade econômica no primeiro trimestre do ano foi superior ao dos últimos três meses de 2010. Hamilton, entretanto, disse que o movimento trimestre a trimestre do Índice de Atividade Econômica do BC (IBC-Br) não é "contínuo", sugerindo que é preciso comparar o que acontece na economia neste momento com o que houve no mesmo período do ano passado.

Para sustentar o argumento de que a desaceleração econômica já começou, o diretor do BC revelou alguns dados sobre o comportamento do mercado de crédito em abril, que mostram, em resumo, uma diminuição no volume de dinheiro emprestado, uma queda nos prazos de financiamento e uma elevação no custo das operações.

A média das concessões de crédito em abril ficou 9,8% menor do que em novembro do ano passado, considerando os dados já livres dos efeitos sazonais. Comparando com março, a queda foi de 3,4%. Em termos de prazo, os empréstimos em abril foram, em média, de 38,1 meses, enquanto em novembro eram de 47,5 meses. No caso dos juros, a taxa média nas operações de crédito pessoal no mês passado subiu para 51,3%, ante 42% em novembro de 2010.

Contração

9,8%

é o quanto recuou a média das concessões de crédito em abril deste ano, em relação a novembro do ano passado

3,4%

foi a queda da média das concessões de crédito de abril em relação a março

38,1 meses

foi a média de prazo para pagar os empréstimos em abril, ante 47,5 em novembro de 2010

51,3%

foi a taxa média de juros nas operações em abril, ante 42% em novembro do ano passado

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