Economia reage a juro menor, PAC espera o Carnaval passar

A economia brasileira começa o ano com o pé direito. Os primeiros indicadores de atividade confirmam expansão em janeiro e o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) não tem nada a ver com isso. Este sinal é bem-vindo às vésperas do feriadão de Carnaval porque a festa do rei Momo disfarça o fato do programa de crescimento lançado pelo governo continuar em banho-maria e ganhando peso no Congresso, onde recebeu centenas de emendas na primeira semana da nova legislatura. "A atividade econômica já começou a reagir ao processo de flexibilização da política monetária", explica Antonio Madeira, economista da MCM Consultores Associados. Desde setembro de 2005, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central retomou o corte da taxa básica de juros, a Selic (atualmente em 13% ao ano, esta encolheu em praticamente um terço e o efeito da queda começa a ser percebido, ainda que o juro real permaneça expressivamente elevado. O crescimento médio da indústria em 2006 enfraqueceu quando comparado a 2005, indicando que a economia não chegou a se beneficiar totalmente da queda dos juros, mas há sinais suficientes de que a atividade ganhou força no final do ano passado, sugerindo melhor desempenho em 2007. "O mercado foi surpreendido positivamente com o avanço da produção industrial de dezembro que, ante novembro, apresentou o terceiro mês consecutivo de alta, conduzindo a série de média móvel trimestral para novo nível recorde", comenta Madeira. A produção dos bens de investimento - categoria em que se enquadram bens de capital e insumos típicos da construção civil - teve evolução melhor que a indústria como um todo, e esses bens aceleraram no ano passado frente ao anterior, como é destacado pelo economista. O comportamento da indústria em 2006 autoriza a MCM Consultores a projetar aumento na taxa de investimento da economia brasileira, balizada pela Formação Bruta de Capital Fixo, para 20,9% do PIB no último trimestre de 2006, ante 20,2% no final de 2005. Investimento avança "O aumento da taxa de investimento da economia é um fato a ser comemorado", afirma Antonio Madeira, que pondera, contudo, que o patamar ainda está distante do necessário para dar suporte a um crescimento corrente mais acelerado da economia. "Em nosso cenário básico, prevemos que o investimento crescerá paulatinamente a partir de 2007 até alcançar 22,1% do PIB em 2010. Este avanço, dada nossa hipótese de desempenho modesto da produtividade, levará o potencial de crescimento da economia para uma média de 3,2% no mesmo período." Madeira lembra que esta indicação não é um "espetáculo do crescimento", mas considera que não deixa de ser um avanço em relação aos dez anos anteriores, quando a taxa média de investimento foi de 20% do PIB e o crescimento médio de 2,2% ao ano. Indicadores antecedentes Marcela Prada, economista da Tendências Consultoria Integrada, projeta aumento de 0,4% da produção industrial em janeiro, ante dezembro, levando em consideração os indicadores antecedentes disponíveis até o momento. Feitos os ajustes sazonais, a Tendências chegou ao crescimento de 6,5% da produção de veículos em janeiro, ante dezembro; aumento de 0,4% do fluxo de veículos pesados que pagam pedágio às concessionárias de rodovias; e alta de 0,1% no consumo nacional de energia. Marcela Prada também atribui a reação da atividade à queda do juro associada a dois outros fatores: persistente aumento da massa real de salários e das operações de crédito. "Notamos também que este início de ano vem embalado com maior confiança de consumidores e de empresários. Este é um sinal muito positivo para os investimentos que exibiram vigor no ano passado." A Tendências Consultoria não alterou projeções de indicadores macroeconômicos em função do lançamento do PAC. "Nossa avaliação é de que o programa não terá efeitos importantes no curto prazo, inclusive porque muitas medidas já estavam em curso quando anunciadas." Juro e câmbio atropelam PAC O PAC pode voltar ao primeiro plano durante a semana de forte apelo político, após ter sido atropelado pelas eleições na Câmara e no Senado e por um levante contra as políticas monetária e cambial. Nesta segunda-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva instala o Fórum da Previdência. Na terça, o presidente se reúne com o comando de 11 partidos que compõem o conselho político da coalizão e os assuntos em pauta são o PAC e a execução do Orçamento, que será contingenciado. Na quarta-feira, os ministros Guido Mantega e Dilma Rousseff explicarão o PAC no Congresso. Há um claro empenho do governo em esclarecer o programa e a possibilidade de algumas revisões, desde que elas não desfigurem as metas de política fiscal. O alerta já foi feito pela ministra chefe da Casa Civil.

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