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Economia reage, apesar da covid

A resiliência da economia evita a paralisação das atividades mesmo com a redução da mobilidade

Claudio Adilson Gonçalez*, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2021 | 04h00

Em 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde classificou a covid-19 como pandemia. No Brasil, o Ministério da Saúde, então comandado por Luiz Henrique Mandetta, começou a fazer as primeiras advertências sobre a necessidade de distanciamento social, uso de máscaras e higiene das mãos. Apesar de Jair Bolsonaro, desde então, se declarar contrário a essas medidas profiláticas e não reconhecer a gravidade da doença, o fato é que, no ano passado, na última semana de março e durante todo o mês de abril, o Brasil quase parou.

De fato, o índice de mobilidade do Google para comércio e lazer, comparativamente ao período anterior à pandemia, chegou a cair 70%, na última semana de março/2020, tendo ficado em -60%, na média do mês seguinte. As previsões sobre os impactos da pandemia na atividade econômica eram catastróficas, para todos os segmentos. O FMI projetava que o PIB brasileiro cairia 9%, em relação a 2019.

No entanto, logo se começou a perceber que, apesar da tragédia humana com perdas de vidas e sequelas em boa parte dos recuperados, os danos econômicos da pandemia, embora significativos, eram menores do que se supunha. Mesmo antes das medidas de recomposição de renda para os mais vulneráveis e dos estímulos monetários entrarem em vigor, já se evidenciava a resiliência dos agentes econômicos.

As restrições de mobilidade estimularam as famílias que ainda não haviam perdido totalmente sua renda a produzirem em suas residências serviços antes adquiridos externamente, com a consequente elevação da demanda por bens, tais como, utensílios e eletrodomésticos, equipamentos de ginástica para substituírem a academia, produtos de informática para o home office, materiais de construção para pequenas reformas, artigos para limpeza, gêneros alimentícios que compensaram a redução da alimentação fora do domicílio, e até mesmo veículos automotores, para fugirem dos transportes coletivos.

Esse inesperado crescimento da demanda por mercadorias surpreendeu a indústria, que acabou ficando com os estoques abaixo do planejado. Como o fenômeno de recuperação rápida da demanda por bens industrializados foi mundial, o preço de matérias-primas, partes, peças e componentes, ao lado do choque de custos em commodities agrícolas, pôs combustível na inflação.

Apesar da segunda onda da covid-19 se mostrar devastadora, com o registro, até agora, de mais de 430 mil óbitos (cerca de 2.050 mortes por milhão de habitantes), as previsões dos analistas para a variação do PIB, em 2021, estão sendo continuamente revistas para cima. A MCM Consultores espera crescimento, no corrente ano, de algo entre 4,0% a 4,5%. Não é nenhuma maravilha, claro. O PIB mal voltará ao nível observado em 2019.

O que a análise detalhada desses números nos ensina?

Em primeiro lugar, quando os dados pandêmicos são controlados pelo grau de vacinação, e separados os relativos à primeira e à segunda onda, esta muito mais contagiosa e letal que a primeira, observa-se forte correlação positiva entre mobilidade e números de novos casos e de mortes, consideradas as defasagens. Bolsonaro ainda não entendeu que o aumento prematuro da mobilidade, mais do que estimular a economia, mata pessoas.

Em segundo lugar, dada a resiliência da economia, a redução da mobilidade social prejudica, mas não paralisa a atividade econômica no País.

Finalmente, o desastroso enfrentamento da pandemia, como vem ocorrendo no Brasil, apesar da recuperação da atividade mais rapidamente do que se esperava, coloca sérios desafios para a política econômica. Deterioração fiscal, pressões inflacionárias e aumento das dificuldades de retomada sustentada do crescimento econômico são os mais evidentes.

* ECONOMISTA E DIRETOR-PRESIDENTE DA MCM CONSULTORES. FOI CONSULTOR DO BANCO MUNDIAL, SUBSECRETÁRIO DO TESOURO NACIONAL E CHEFE DA ASSESSORIA ECONÔMICA DO MINISTÉRIO DA FAZENDA

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