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Suely Caldas
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Economia sem rumo

Logo cedo, às 9 horas de quinta-feira e antes da abertura dos mercados, o IBGE divulgou os números do Produto Interno Bruto (PIB). Angústia, desesperança, economia em frangalhos, desemprego disparando, previsões de piora à frente, enorme incerteza com o futuro de 205 milhões de brasileiros. Em qualquer país do mundo a desalentadora notícia explodiria como bomba em ativos do mercado, a Bolsa de Valores despencaria e o câmbio subiria na velocidade de um jato. Na mesma manhã, a revista Isto É publica depoimento do senador Delcídio Amaral (PT-MS) revelando fatos que implicam a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula em investigações da Polícia Federal. Dia seguinte, sexta-feira, 6 horas, a Polícia Federal tira o ex-presidente Lula da cama e o obriga a seguir ao Aeroporto de Congonhas para prestar depoimento. Em qualquer país do mundo notícias como estas criariam perigosa instabilidade política e reações desastrosas dos mercados. Menos no Brasil. No Brasil de Dilma, as más notícias produzem bons efeitos na economia. Por quê?

Suely Caldas, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2016 | 03h07

Na verdade, a queda de 3,8% do PIB, o mergulho de 4% no consumo das famílias e o recuo de 14,1% nos investimentos, como aconteceu em 2015, causam muito mais danos à população do que o envolvimento de políticos com corrupção. Um país em recessão e próximo da depressão espalha desemprego, a renda desaba, a pobreza se alastra, as famílias entram em desespero, a desesperança se amplia. Era de esperar, portanto, reação negativa do mercado financeiro – a Bovespa desmoronar e o câmbio subir nas alturas. Aconteceu o contrário: o índice Bovespa disparou e o dólar caiu. Por quê?

Ocorre que as outras duas notícias, de conteúdo político, superaram a econômica (sobre o PIB) e substituíram o pessimismo que deveriam provocar por um clima de otimismo eufórico, de esperança de mudanças no futuro. A razão dessa metamorfose é a crise política que se instalou no País desde 2015, enfraqueceu a presidente, Lula e o PT e alimentou um clima de rebelião de partidos aliados contra o governo. Até porque, ao desnudar relações suspeitas dos governos petistas, a Operação Lava Jato freou a farra de distribuição de cargos e verbas que antes compravam a cumplicidade dos partidos aliados. Secou o dinheiro dos cofres públicos, da Petrobrás e de outras estatais, e quando isso acontece os políticos cobram o seu preço, traduzido em impor dificuldades a quem governa.

A barafunda política se instalou em Brasília. Hoje o governo não consegue aprovar nada no Congresso, a impopular presidente e sua equipe estão perdidas, falam em reformas tributária e da Previdência e não conseguem formular nem esboço de proposta. A incompetência paralisa a gestão e o governo só consegue colecionar fiascos e aumentar a falta de confiança. É essa barafunda política que tem predominado e dado as cartas no rumo da combalida economia.

A detenção de Lula alimentou o fogo e fez crescerem as labaredas da barafunda política. E com ela a economia segue sem rumo, sem investimentos, sem crescimento. Pior, marchando para a depressão, mais um ano de queda amarga do PIB. O futuro é incerto, imprevisível, e não há analista que acerte hoje o que ocorrerá na economia nem mesmo nos próximos dois meses.

A divulgação do PIB levou analistas e consultores a refazerem suas previsões. É um tal de apostar que o PIB de 2016 vai desabar entre -3% e -4%, melhorando para -0,1% a -0,2% em 2017 e crescimento vigoroso, só em 2020, 2022. As apostas também variam para a taxa Selic e o câmbio. Tudo chute, as previsões estão muito longe do acerto e da precisão porque o futuro próximo da economia virou um enigma indecifrável. Enquanto a crise política dominar a cena, a economia ficará sufocada. E ninguém sabe se a crise vai piorar, melhorar, acabar, alongar-se. Se a presidente Dilma deixará o governo, se Michel Temer vai substituí-la, se o TSE vai cassar o mandato de ambos, se as ruas forçarão uma nova eleição, se as manifestações do dia 13 serão sucesso ou fracasso. A barafunda avança e a economia sofre, segue sem rumo.

É JORNALISTA E PROFESSORA DA PUC-RIO - e-mail: sucaldas@terra.com.br

 

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