Tiago Queiroz/ Estadão
Propostas econômicas para melhorar a renda da população, aumentar o emprego e reduzir a pobreza devem dominar o debate entre os presidenciáveis em 2022. Tiago Queiroz/ Estadão

Economia será tema principal nas eleições presidenciais em 2022

Se combate à corrupção dominou o debate em 2018, agora o brasileiro vai cobrar dos presidenciáveis solução para problemas práticos, como inflação, renda e emprego

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2021 | 05h00

BRASÍLIA - Se o combate à corrupção dominou o debate das eleições em 2018, as propostas econômicas para melhorar a renda da população, aumentar o emprego e reduzir a pobreza deverão ser a tônica de 2022. Especialistas apontam o trinômio “desemprego, pandemia e inflação” como determinante para a corrosão da renda dos brasileiros e do crescimento.

O debate se acelerou após o presidente Jair Bolsonaro bancar um benefício de R$ 400 para o novo programa social e acenar com outras benesses para ampliar a sua popularidade. Mesmo contrário à vacinação contra a covid, Bolsonaro aprovou o plano de imunizar toda a população adulta com uma dose de reforço em 2022. A estratégia seria apagar o “carimbo” de que o governo foi responsável pelo atraso na vacinação em 2021.

Enquanto Bolsonaro aposta no sucesso da distribuição de renda e projeta uma aceleração da geração de empregos, estrategistas econômicos ligados a outros possíveis presidenciáveis – Ciro Gomes, Eduardo Leite, João Doria e Lula – também traçam estratégias. 

“Não tenho dúvida que a questão econômica vai ser central nas eleições: é o que está afetando a vida das pessoas. O poder de compra do brasileiro diminuiu a satisfação”, diz Bruno Soller, cientista político e sócio do Instituto Travessia, que ajuda a traçar estratégias de campanha. Segundo ele, o ponto chave será ver como as candidaturas conseguirão criar um projeto de regaste econômico do País que atinja diretamente a vida das pessoas. 

Hoje líder nas pesquisas, o ex-presidente Lula está focando na desigualdade social, mas, segundo Soller, ele está “jogando parado”, pois não endereça os problemas econômicos criados durante o governo de Dilma Rousseff, entre 2011 e 2016.



 

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Conheça as ideias dos conselheiros econômicos dos presidenciáveis

Pré-candidatos às eleições formam time de conselheiros com ideias para ampliar a renda e reduzir a inflação no País

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2021 | 05h00

BRASÍLIA - Fazer o Brasil crescer mais e combater a pobreza são os dois temas que estão no topo das preocupações dos conselheiros econômicos dos presidenciáveis. O Estadão foi atrás do que pensam os economistas que estão auxiliando os presidenciáveis de 2022 com o presidente Jair Bolsonaro: Ciro Gomes, Sérgio Moro, Luiz Inácio Lula da Silva, além dos dois pré-candidatos do PSDB, João Doria e Eduardo Leite, que disputam neste domingo, 21, as prévias do partido.

Enquanto Bolsonaro e seus auxiliares apostam nas medidas de aumento de gastos (Auxílio Brasil, vale-gás e bolsa caminhoneiro) para a recuperação mais rápida da economia, seus adversários reforçam os pontos fracos do seu governo: inflação e desemprego. Com a antecipação da corrida eleitoral para o Palácio do Planalto em 2022, o debate econômico, ainda marcado por proposições muito genéricas, deve ganhar espaço maior daqui em diante.

Veja, a seguir, a agenda que deve ser seguida por cada um dos presidenciáveis, a partir de conselhos de economistas: 

Bolsonaro

Na cadeira da Presidência da República, Bolsonaro tem a caneta na mão para lançar “bondades” na tentativa de melhorar sua popularidade para chegar competitivo em 2022. A aprovação da PEC dos precatórios para os seus planos é essencial e o seu posto Ipiranga, o ministro da Economia, Paulo Guedes, não tem lhe dito não. Nem mesmo para a quebra do teto de gastos, a regra que impede que as despesas cresçam em ritmo superior à inflação.

Pelo contrário: Guedes já declarou que agora que “vem a eleição, vai para o ataque” com Bolsonaro.  Apoiou a decisão do presidente de subir o Auxílio Brasil (programa substituto do Bolsa Família) de R$ 300 para R$ 400, posição em que os ministros políticos acabaram se transformando em “conselheiros econômicos do presidente”. O mais aguerrido deles: Onyx Lorenzoni (Trabalho e Previdência).

Eles avisaram que, sem subir o valor, ficaria mais difícil para o presidente se reeleger num cenário de inflação alta e perda de renda da população. Bolsonaro assumiu o risco, apesar do conselho de Guedes de que poderia se tornar o Macri brasileiro, numa referência ao ex-presidente da Argentina que perdeu na tentativa de se reeleger.

Como estratégia de campanha, Guedes passou a adotar o discurso do social para afastar a marca de que trabalha a serviço do mercado financeiro, reforçada por declarações polêmicas, como a de que as empregadas domésticas estavam indo para a Disney com o dólar baixo, “uma festa danada”.

Defendeu um abraço social um pouco mais longo e um ajuste fiscal menos intenso:  "A solução de R$ 600 era nota 4 na economia, fura teto. A solução de R$ 300 estava nota 10 na técnica, mas 5 na política".  Mas continua  alvo da fritura e do fogo amigo, enquanto Bolsonaro foi até o Ministério da Economia para dizer que fica com ele até o fim do governo.

Na fila para o seu lugar, está o presidente da Caixa, Pedro Guimarães, o PG2, outro conselheiro do presidente, que vai viajar com Bolsonaro na campanha. 

Ciro

Ex-secretário de Fazenda do Ceará, o deputado federal Mauro Benevides segue como um dos principais conselheiros econômicos de Ciro Gomes. Os dois estiveram juntos nas eleições de 2018, quando um dos motes da campanha do pedetista foi “Ciro vai tirar seu nome do SPC”

Segundo Benevides, o foco continua o mesmo: trazer de volta o crescimento com a ampliação da capacidade de consumo das famílias (via redução do endividamento) e dos investimentos públicos. Sem essas medidas, diz, o Brasil continuará sem crescer. Esses dois componentes representam 80% do PIB quando analisado pelo lado da demanda.

“O investimento público está no chão. Eram R$ 100 bilhões em 2010 e estão agora em R$ 20 bilhões. E ninguém diz nada”, afirma o pedetista, que defende a retirada dos investimentos do teto de gastos.

Benevides diz que a estratégia para 2022 continua a mesma porque nada do que foi proposto avançou, entre eles, o corte de 15% das desonerações tributárias e a volta da cobrança do Imposto de Renda dos dividendos. Com essas duas medidas, Benevides diz que é possível conseguir “fácil” R$ 96 bilhões por ano para melhorar as contas públicas.

Ele atesta que, com Ciro, a redução das renúncias – política que não se conseguiu fazer até agora – vingaria: “Você não acha que o Ciro presidente não sustenta isso? Ele abriu a economia quando era ministro sob protesto da indústria”. Para Benevides, Ciro é o único candidato que teve coragem de colocar no papel o seu plano para o Brasil com o livro que escreveu, “Projeto Nacional: O dever da Esperança”.

Lula

Líder nas pesquisas, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não tem conselheiro econômico, apesar de economistas ligados ao PT – como Guilherme Mello, da Unicamp, e o ex-ministro da Fazenda, Nelson Barbosa – estarem apresentando propostas para a recuperação econômica e o crescimento do País em 2023.  “Ele é o porta-voz dele mesmo”, diz a presidente do PT, Gleisi Hoffmann (PR).

Segundo ela, Lula não acha necessário ter um porta-voz para falar sobre economia e tem o que mostrar com uma "gestão orçamentária responsável" nos oito anos em que foi presidente da República (2003-2010).

Na semana passada, durante viagem internacional a países da Europa, Lula se encontrou com líderes políticos, entre eles, o presidente da França, Emmanuel Macron, quando reforçou em discurso pontos da sua gestão em contraste com o governo de Jair Bolsonaro, o que deve dar a tônica da sua campanha: controle da inflação,  elevação do salário-mínimo e a criação do Bolsa Família, programa que acabou no governo atual e foi substituído pelo Auxílio Brasil. “Tiramos 36 milhões de pessoas da miséria”, disse Lula.

Na estratégia de se contrapor aos pontos fracos do seu principal adversário, Lula destacou que trabalhadores perderam direitos com a explosão do desemprego e custo de vida. “A fome voltou ao cotidiano das famílias”, afirmou ressaltando que Brasil tinha saído do Mapa da Fome da ONU e interrompido um ciclo de políticas econômicas neoliberais, de encolhimento do estado e privatização sem critério.

Nas suas redes sociais, o ex-presidente também vem destacando outros dois pontos fracos de Bolsonaro: a preservação do meio ambiente e as mudanças climáticas e o isolamento internacional.

Moro

Ex-presidente do BC, Affonso Celso Pastore surpreendeu quando aceitou se juntar ao ex-ministro Sérgio Moro para desenhar o programa econômico. É uma das lideranças do Centro de Debates de Políticas Públicas (CDPP), um think tank nacional voltado a desenvolver estudos com propostas para os principais desafios nacionais.

Outros economistas estão ao seu lado na elaboração do programa. Mas, por enquanto, ele e Moro preferem manter os nomes dos colaboradores em sigilo. Tem sido um dos críticos mais ácidos do ministro da Economia, Paulo Guedes, apontando erros de política que vão custar, segundo ele, a desaceleração econômica em 2022.

Em resposta, Guedes tem feito contra-ataques, sempre atribuindo às críticas ao embate político e ideológico contra Bolsonaro. “Não fez nada”, disparou recentemente o ministro. Pastore escolheu como foco de política o combate à pobreza, crescimento com distribuição de renda e a retomada da responsabilidade fiscal.

Para o economista, um ponto importante da agenda é dar a correta dimensão sobre qual é o tamanho do Estado na economia. “Privatizações são importantes, mas há aqui um conflito entre o Estado mínimo, liberal no qual se privatiza todas as empresas, e o Estado que é eficiente e privatiza aquilo que for privatizável para fazer ações como reduzir o nível de pobreza”.

Ele cita, como exemplo, a Petrobras. Diz que não vê razões para que a empresa faça o refino de petróleo e nem atue na distribuição, mas pondera que ela tem vantagens no negócio de achar petróleo. Na sua visão, para investir, a companhia precisa ter acionistas privados e não pode sofrer intervenções do governo para fixação de preços.

PSDB

Como secretário de Fazenda de São Paulo, Henrique Meirelles é hoje o economista mais próximo do governador do Estado, João Doria, que disputa nesse domingo com o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, as prévias do PSDB.

Meirelles será candidato ao Senado pelo seu Estado natal, Goiás, o que automaticamente lhe coloca fora de uma eventual campanha do governador, mas assessores de Doria afirmam que seguirá influenciando.

A exemplo de outros presidenciáveis, os nomes de outros economistas que podem aderir à campanha não foram ainda revelados. Para Meirelles, o que deve marcar o debate eleitoral em 2022  é o cenário econômico atual muito difícil com inflação elevada, juro alto, crescimento baixo e falta de emprego. 

Ele diz que Doria tem o que mostrar: crescimento maior do que o restante do País, responsabilidade fiscal, reformas econômicas que abriram espaço de R$ 50 bilhões para investimentos e concessões. 

Ex-secretário de Fazenda do Rio Grande do Sul, Aod Cunha é o homem da economia da campanha de Leite O programa do governador gaúcho terá uma grande preocupação com o tema da desigualdade social  e foco de erradicação da pobreza infantil, um contingente de 17 milhões de crianças até 14 anos.

Outro eixo é de ações que façam com que o País cresça mais, porém, de forma estrutural. “Achamos que o nível de desigualdade, não só de renda, mas de uma maneira geral é muito disfuncional, inclusive para o crescimento”, diz.

O Brasil, fora da África, é o País que tem a maior concentração de renda.  “Achamos que um País que está no final do seu bônus demográfico (maior proporção de pessoas em idade de trabalhar em relação à população dependente, crianças e idosos) não tem outro jeito do que aumentar a produtividade”, diz o conselheiro.

 

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