Economia só deve iniciar uma reação no 2º semestre de 2016

Para economistas, o consumo das famílias, que puxou o crescimento nos últimos anos, deve ter 1ª queda desde 2003

Márcia De Chiara, Luis Guilherme Gerbelli, O Estado de S. Paulo

18 de abril de 2015 | 22h00

A economia brasileira deve voltar a crescer, levando-se em conta o período acumulado de 12 meses, somente no segundo semestre de 2016. Na semana passada, projeções dos economistas do Fundo Monetário Internacional indicavam queda 1% do Produto Interno Bruto (PIB) este ano e crescimento de 1% em 2016. 

“A barrigada será longa, só estamos no começo da freada”, afirma o economista da RC Consultores, Thiago Biscuola. Ele lembra que o varejo, sustentado pelo avanço do consumo das famílias que foi o motor do crescimento nos últimos tempos, deve registrar neste ano a primeira queda desde 2003. Além disso, o mercado de trabalho deve continuar cada vez mais fraco, com avanço das demissões.

“A atividade deve começar a se recuperar no segundo semestre de 2016. Os desafios que temos pela frente são imensos”, afirma o diretor de Pesquisas da GO Associados, Fabio Silveira. Ele observa que o resgate da credibilidade no mercado internacional já começou a ser sinalizado pelo controle dos gastos públicos, que está encaminhado. “Hoje as expectativas são mais favoráveis do que as de um mês atrás”, diz o economista, ressaltando que o desempenho da Bolsa espelha essa reação. Em 2015, o Ibovespa – principal termômetro do mercado acionário – subiu 7,89%.

Mas é consenso entre os economistas que o caminho será longo até que a atividade volte para o terreno positivo. A inflação em alta tira a força do consumo no mercado doméstico, que responde por 60% do PIB, e retarda a retomada do crescimento. Em 12 meses até abril, a inflação medida pelo IPCA -15, que é um indicador antecedente do índice cheio, acumula alta de 8,22%, o maior nível desde janeiro de 2004.

Silveira calcula, por exemplo, que o crédito destinado a pessoas físicas, um dos combustíveis do consumo, deve ter neste ano queda de 3%, descontada a inflação. Além disso, outro pilar do consumo, que é a massa salarial, deve avançar muito pouco, próximo de zero. “Os dissídios salariais estão cada vez menores”, lembra o economista.

Crise longa. Na avaliação de Biscuola, da RC Consultores, a crise atual será mais longa do que a de 2008/2009 porque envolve questões estruturais internas da economia brasileira.

“Na crise de 2008/2009, o que houve foi uma restrição no crédito no mercado internacional e o País teve capacidade de lidar com esse obstáculo e reagir rapidamente”, explica. Atualmente, no entanto, as restrições são mais severas e resultam de políticas macroeconômicas equivocadas, diz o economista. De um lado foi aplicada uma política monetária mais restritiva e, de outro, houve um afrouxamento na política fiscal.

O ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda Julio Gomes de Almeida acredita que a piora da economia brasileira “só está começando”. Uma mudança de perspectiva, afirma ele, só ocorreria se fosse encontrada uma solução que melhorasse o investimento da Petrobrás e a situação de toda a cadeia da construção pesada. 

Na visão dele, contudo, é difícil vislumbrar uma melhora “porque, por ora, não há porta de saída à vista.”. “O grande problema da atualidade é que, para onde você olha na economia tudo está amarrado. Qual é a porta de saída? Não tem, por ora. Qualquer antecipação é uma profissão de fé”, diz o ex-secretário de Política Econômica.

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