''Economia sobrevive graças aos mais pobres''

Lula reclama de empresários por corte de investimentos e cita a Vale

Leonencio Nossa, Lucinda Pinto, Fernando Nakagawa e Angela Lacerda, O Estadao de S.Paulo

12 de setembro de 2009 | 00h00

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva comemorou o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre de 2009, que cresceu 1,9% em relação ao primeiro trimestre , em longo discurso na visita ao Porto de Suape, em Ipojuca (PE).

Lula lembrou que em dezembro foi criticado por ter feito um discurso em cadeia de rádio e TV pedindo para as pessoas continuarem consumindo para evitar o desemprego na indústria. "Graças ao povo brasileiro, sobretudo à parte mais pobre, a economia sobreviveu", disse.

"Hoje, com muito orgulho, digo que os dados do IBGE mostram que não estávamos tão errados como se acreditou", ressaltou. "O PIB de hoje demonstra que a economia brasileira está se recuperando."

Lula disse que no início da crise financeira parte da sociedade brasileira preferiu acreditar mais nas manchetes de jornais do que nas avaliações otimistas do governo de que o País estava preparado para enfrentar as turbulências. "Este país estava muito mais preparado do que os Estados Unidos e a União Europeia porque o povo fez sacrifício", afirmou. Ele reclamou especialmente de empresários, que chegaram a dar férias coletivas em dezembro e janeiro.

"Muitas pessoas preferiram acreditar numa mentira bem contada do que numa verdade nua e crua. Parte da sociedade brasileira entrou em pânico porque acreditou mais nas manchetes do jornal do que naquilo que a gente falava", disse.

VALE

O presidente também se queixou da Vale. Disse que esperava mais da mineradora no auge da crise. Lula, que disse ser amigo do presidente da empresa, Roger Agnelli, confessou sua insatisfação com sua decisão de não ter iniciado projetos considerados importantes pelo governo, como a construção de siderúrgicas e investimentos na encomenda de navios brasileiros.

Ele relatou que no último encontro com Agnelli, esta semana, lhe disse que a Vale poderia ter começado as obras de siderúrgicas no Espírito Santo, Pará e Ceará. "Eu disse ao companheiro Roger Agnelli que era para termos começado a construir essas siderúrgicas no auge da crise, para dar resposta a quem estava com medo."

Embora a Vale seja uma empresa privada, 11,5% das ações do bloco de controle pertecem à BNDESPar, subsidiária do BNDES, e outros 49% estão nas mãos de um grupo de fundos de pensão liderados pela Previ, dos funcionários do Banco do Brasil.

RESPOSTAS

O presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, também aproveitou o crescimento do PIB para responder aos críticos da política monetária. Ele afirmou que todas as medidas tomadas pelo BC e pelo restante do governo durante a crise "foram adequadas, na medida certa, na hora certa". Mas advertiu que é preciso "manter a guarda" e "a política que está dando certo".

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, foi na mesma linha. "O resultado do PIB foi muito positivo, mostra que o Brasil está tendo uma das recuperações mais rápidas da crise."

Anualizada, segundo Mantega, a taxa de 1,9% do PIB representaria 7,8%. Mantega observou que, depois do resultado negativo no primeiro trimestre, a economia começou a "deslanchar". Ele disse que já existem indicadores que sugerem que o terceiro trimestre pode ter desempenho ainda mais robusto.

Segundo o ministro, a expectativa é de crescimento de 2% a 3% no terceiro trimestre, ante o segundo. "Essa recuperação rápida consolida a possibilidade de um PIB positivo em 2009."

Segundo Mantega, o resultado do primeiro semestre ainda acumula uma variação negativa de 1,5%, mas, por causa do processo de recuperação, é possível que haja avanço do PIB de 3,5% no segundo semestre. "O que nos possibilita esperar crescimento de 1% em 2009."

O ministro disse que a recuperação da economia brasileira se dá em formato de V e isso é possível, segundo Mantega, porque o Brasil estava forte quando a crise começou e porque o governo adotou ações fiscais que estimularam o consumo. Também citou o efeito da redução da taxa de juros. Segundo ele, o governo deve gastar entre 1% e 1,5% do PIB em 2009 em medidas de estímulo ao consumo.

REPERCUSSÃO

Flávio Castelo Branco

Gerente executivo de Política Econômica da Confederação Nacional da Indústria (CNI)

"Os números mostram a reação da economia brasileira e a importância das políticas de estímulo que fizeram com que os setores reagissem. Mas isso não significa que a crise está superada"

Jim O"Neill

Economista-chefe do Goldman Sachs e criador do termo Bric

"A política macroeconômica bem-sucedida e o controle da inflação deram uma nova âncora que permite ao País lidar com choques externos melhor do que antes. É muito cedo para pensar em estratégias de saída no Brasil, os políticos podem relaxar"

Henrique Meirelles

Presidente do BC

''É o momento de manter a linha e trabalhar duro porque tem muita coisa a fazer. Não é hora de baixar guarda. É hora de saber que estamos no caminho certo''

Lisa Schineller

Diretora de risco soberano da S&P

''Desde que promovemos o Brasil a grau de investimento, acreditamos que tudo seguirá no

caminho certo''

Aloizio Mercadante

Senador(PT/SP)

"O Brasil foi um dos últimos a entrar na crise e um dos primeiros a sair. A recessão acabou. A política econômica foi prudente e as medidas anticíclicas eficientes"

Paulo Bernardo

Ministro do Planejamento

"O Brasil voltou a crescer... Vai ser um Natal com as famílias consumindo muito, vendendo muito, muitas encomendas para a indústria brasileira"

Miguel Jorge

Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior

"Isso comprova o acerto das medidas que o governo tem adotado desde o início da crise no ano passado"

Guido Mantega

Ministro da Fazenda

''O resultado foi muito positivo. Mostra que o Brasil está tendo uma das recuperações mais rápidas da crise''F

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