Economista britânico prevê recuperação argentina

A Argentina deve superar as ameaças mais imediatas - o colapso do sistema financeiro, a desvalorização desenfreada do peso, megainflação e crise constitucional - e poderá iniciar uma modesta recuperação até o final deste ano ancorada numa regime cambial mais competitivo e no retorno ao país de investimentos mantidos no exterior pelos argentinos.Já o Mercosul vai se beneficiar através de uma maior coordenação macroeconômica entre o Brasil e Argentina, embora as negociações para a formação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e com a UE poderão encontrar sérios obstáculos. A previsão é do economista Victor Bulmer-Thomas, diretor do Royal Institute of International Affairs e um dos mais renomados especialistas europeus em América Latina."Ainda há riscos para a Argentina, mas não vejo uma situação de catástrofe ou desastre, não estou tão pessimista como vários comentaristas sérios vêm dizendo", disse ele durante uma palestra realizada ontem na London School of Economics. Como exemplo, Bulmer-Thomas citou a clima de pessimismo no mercado internacional que predominou durante a desvalorização do real no início de 1999."Muitos acreditavam que a desvalorização seria desenfreada e o Brasil voltaria a registrar uma grande inflação", disse. "Mas após alguns meses, esses temores não se concretizaram e o mesmo poderá acontecer com a Argentina."O economista alertou no entanto, que "ninguém deve se iludir " com esses primeiros dias de livre flutuação cambial, com o peso se mantendo relativamente estável diante do dólar. "Não há dúvida que o peso está fadado à uma desvalorização feia, não devemos nos iludir como está acontecendo nesta semana", disse. "Há um forte controle na oferta e demanda da moeda norte-americana, mas isso não vai evitar que a cotação do peso eventualmente caia para 3 ou 3,5 diante do dólar antes de eventualmente retornar para uma patamar de 2,50, aliás o mesmo comportamento do real após a desvalorização."InflaçãoSobre o risco de uma alta inflacionária, Bulmer-Thomas salientou que "uma desvalorização de 200% não significa necessariamente uma inflação de 200%". Segundo ele, a depressão econômica na Argentina conterá uma eventual alta dos preços. Além disso, a modesta participação das importações e exportações no PIB argentino diminui o impacto da desvalorização cambial."Acho que o governo argentino terá sorte se conseguir um inflação neste ano inferior aos 20%. Mas certamente ela será superior à previsão oficial de 14% e muito inferior à algumas previsões de mercado, que falam até em 60%."Para o economista, um dos maiores riscos para o governo argentino é déficit orçamentário, "que pode fugir do controle". "Isso poderá levar à necessidade de se imprimir mais dinheiro, ou seja, teremos a monetarização do déficit, gerando inflação" . Esse risco, segundo ele, será maximizado caso o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial demorem muito tempo para disponibilizar recursos para o país."Se o FMI não ajudar nas próximas semanas, o déficit vai crescer e isso ameaçará a inflação", disse. "Mas estou bem seguro de que o FMI vai conceder ajuda. O fundo ainda tem sérias dúvidas em relação ao plano econômico, mas está numa situação na qual não pode ser tão zeloso como foi no passado."Recapitalização dos bancosBulmer-Thomas também não crê no colapso do sistema financeiro. Segundo ele, o governo argentino terá dificuldades para cobrir o "buraco" de cerca de US$ 20 bilhões de dólares dos bancos através da emissão de bônus. "Há uma falta de credibilidade, não há confiança entre os investidores." Mas ele acredita que os bancos estrangeiros, principalmente os espanhóis, vão decidir recapitalizar as suas filiais no país."Eles estão diante de uma decisão difícil: recapitalizar ou vender seus ativos por preços muito baixos, abrindo inclusive caminho para que seus competidores norte-americanos entrem no país e região", afirmou. "Na minha opinião, um ou dois bancos estrangeiros talvez saiam do país, mas no geral eles vão recapitalizar, evitando assim o colapso do sistema."O economista também não acredita na possibilidade de caos social ou uma crise constitucional na Argentina, apesar do descrédito na classe política que predomina na população. "O presidente Eduardo Duhalde até que vem lidando com certa habilidade a situação", disse. "Essa recente proposta de adoção de um sistema parlamentarista serviu como uma forma de oferecer uma saída para atual sistema político falido."Bulmer-Thomas salientou que embora "não esteja tão pessimista", a Argentina precisa de reformas políticas se pretende retomar um crescimento sustentável no longo prazo. "O país, com o câmbio mais competitivo e retorno de capitais, poderá iniciar uma recuperação nos próximos dez meses do nível de emprego e a atividade econômica", disse. "Mas para registrar crescimentos anuais de PIB de 5% ou mais, o país precisará de profundas reformas, inclusive talvez o sistema parlamentarista."MercosulApesar do efeito negativo da recessão argentina, o economista acredita que o Mercosul deverá ser beneficiado. "No curto prazo, a Argentina deverá retirar todas as barreiras não-tarifárias impostas no ano passado por causa de seu câmbio fixo", disse. ?Já no longo prazo, Brasil e Argentina poderão estabelecer políticas macroeconômicas coordenadas. A Argentina adotou o mesmo sistema cambial do Brasil e um peso cotado a 2,50 está muito próximo do real."Bulmer-Thomas não crê, no entanto, num rápido avanço nas negociações para a formação da Alca e para um acordo comercial com a União Européia. Segundo ele, caso os Estados Unidos não alterem o fast-track (Trade Promotion Authority - TAP), que impôs empecilhos para a maioria dos produtos agrícolas brasileiros, a formação da Alca poderá estar ameaçada."O Brasil tem bons motivos para contestar o atual formato do TAP e não é difícil imaginar o governo brasileiro negando-se a negociar se não os Estados Unidos não fizerem mudanças." O economista observou, no entanto, que "o governo norte-americano pode tentar isolar o Brasil através de acordos bilaterais com diversos países da região", como fez com o Chile. "Seria uma forma de pressão sobre o governo brasileiro". Segundo ele, a eleição presidencial no Brasil será um fator importante. "Com o José Serra na presidência, um acordo poderia ser trabalhado, mas com o Lula, seria mais difícil, ninguém sabe."As negociações com a UE também não devem progredir rapidamente. "O interesse dos europeus pela América Latina, principalmente o dos espanhóis, foi prejudicado pela Argentina." Além disso, segundo Thomas, a UE tem uma série de prioridades internas para resolver nos próximos anos, como por exemplo o seu alargamento com a inclusão de países do leste europeu."O interesse dos europeus pelo Mercosul foi forçado nos últimos anos pelo risco de formação da Alca", afirmou. "Se a Alca engatinhar, os europeus não devem priorizar o assunto. As duas negociações terão um ritmo de progresso paralelo."Experimentalismo políticoBulmer-Thomas disse que a crise argentina reforçou, na América Latina, a opinião de que "os frutos da globalização" na trouxeram benefícios. "Com exceção do México, favorecido com o Nafta, a região no geral não registrou crescimentos notáveis de PIB e os níveis de pobreza continuam a crescer", disse. Mas ele não acredita no retorno do populismo ou protecionismo na região."A decepção com os partidos políticos deverá abrir caminho para mais experimentalismo, com o fortalecimento de candidatos independentes e também de novos partidos", disse. "Essa crise deverá servir como um alerta para os partidos políticos tradicionais. Bulmer-Thomas previu que os países da região poderão adotar controles de capitais mais rigorosos.Além disso, "a preocupação com a inflação poderá se enfraquecer um pouco e os governos poderão adotar uma estratégia de conviver com déficits mais amplos para poderem direcionar mais recursos para a área social".Leia o especial

Agencia Estado,

13 de fevereiro de 2002 | 10h46

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