Economista diz não se deve desvalorizar o real

Com o dólar estacionado há várias semanas na casa dos 2,80 reais, aumenta a polêmica entre empresários, analistas e economistas sobre se a moeda brasileira está ou não valendo demais? Ontem, em reunião no Palácio do Planalto com os ministros Antonio Palocci e José Dirceu, pesos pesados do mundo empresarial saíram em defesa de uma intervenção do governo para forçar a queda do real. Mas não é essa a opinião de Luiz Fernando Lopes, diretor do Banco Pátria, ouvido no programa Conta Corrente, da Globo News. Na entrevista, Lopes também diz se chegou, ou não a hora, de os bancos aumentarem seus empréstimos a pessoas menos abonadas. Para ele, isso só deverá ocorrer em meados do ano que vem.O momento certoNa avaliação do diretor do Banco Pátria, ainda não chegou o momento para uma desvalorização do real. Explicou que os resultados favoráveis obtidos no decorrer do ano são uma mostra expressiva de que o dólar, na casa dos 2,80 reais, é suficiente para o País produzir um superávit na balança comercial e nas transações correntes, "que não vemos desde 1992". Para ele, a desvalorização do real pode ocorrer ao longo do tempo. "Vamos acertar agora (como serão) os seis meses ou doze meses para a frente. É provável que a taxa de câmbio vá se desvalorizando, no bojo da recuperação da economia, no bojo do corte de juros. Vamos lembrar que uma boa parte do capital estrangeiro que entrou no País ao longo dos últimos meses, não era capital de investimento de longo prazo, produtivo. Era um capital para arbitrar a taxa de juros, o diferencial dos juros no Brasil, que eram muito maiores do que lá fora. Na medida em que os juros vão caindo, esse capital vai saindo e até vamos ter uma evolução na taxa de câmbio."Ação do BCPara Luiz Fernando Lopes, o que deve acontecer é uma atuação do Banco Central na área cambial, através dos instrumentos de que dispõe, como a intervenção do Tesouro no mercado para comprar divisas ou para fazer a rolagem cambial, "mas fazendo com que esse movimento seja suave".Empréstimos bancáriosO diretor do Banco Pátria explicou que o aumento dos empréstimos bancários está ocorrendo apenas em relação aos clientes tradicionais, que reduziram significativamente suas dívidas a partir da campanha eleitoral do ano passado. Ou seja, temerosas quanto ao futuro político do País, as próprias empresas foram reduzindo fortemente seu endividamento. "Agora, você tem uma situação de perspectiva de queda de juros, com a retomada mais forte do ciclo de atividade (econômica), e aí, do ponto de vista dos emprestadores de dinheiro, passa a ser interessante emprestar para aqueles clientes, que não estão endividados e têm uma perspectiva de melhora de faturamento."O guarda-chuva sem chuvasO que está ocorrendo com os bancos, segundo Lopes, é típico dessa nova fase da economia. Ou seja, voltaram a emprestar o guarda-chuva porque sabem que não está chovendo. Mas para as classes menos favorecidas, os empréstimos ainda vão demorar a acontecer, conforme ressaltou. "Num primeiro momento, o banco vai atrás daqueles clientes tradicionais, que têm cadastro e uma história de crédito positiva com ele. Agora, se a (baixa) inflação for sustentável ao longo de 2004 e 2005, fatalmente (o banco) vai ter que começar a buscar clientes que não exatamente tradicionais. No caso do Brasil, o cliente que ficou de fora dos últimos ciclos de expansão - a última vez que teve acesso ao crédito foi no começo do Plano Real -, é o consumidor de baixa renda, que é a grande maioria da população. Esse é consumidor não só de bens duráveis, mas que está interessado também em comprar a casa dele. Você tem financiamentos que foram desativados que vão recomeçar a ser feitos. Mas acho que não é o caso, ainda, (para isso ocorrer), no final deste ano ou no começo do ano que vem. Mas ao longo de 2004 e 2005, o sistema financeiro certamente vai começar a namorar esse tipo de cliente."

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