Economista diz que Argentina deve imitar Chile

A Argentina, que não definiu ainda qual rumo tomar em termos de política econômica, poderá adotar, no futuro, um modelo híbrido, entre o chileno e o brasileiro. "Se há alguém a quemimitar, esse é o Chile", explicou à Agência Estado o diretor executivo da Fundação Capital, Carlos Pérez. Mas, acrescentou o economista da Fundação, cujo diretor, Martín Redrado, aceitou o convite para ser secretário de Comércio e Relações Internacionais da chancelaria, "a Argentina não pode deixar de observar a experiência brasileira, pelo menos no aspecto conjuntural".Pérez se referiu à flutuação do real e as metas inflacionárias do Banco Central. Desde que tomou posse, no fim do ano passado, o presidente Eduardo Duhalde tem insistido, em suas declarações à imprensa, que a Argentinadeverá imitar a experiência do Chile, que não foi afetada significativamente pelas crises do México, Rússia, Ásia, Brasil e, agora, Argentina. Até agora, no entanto, nem o presidente e muito menos a sua equipe econômica explicaram em que ou quais pontos do modelo chileno poderiam ser imitados pela Argentina. As explicações se restringiam apenas ao aspecto de comércio exterior.Pérez, um dos economistas da Fundação mais ligados a Redrado, hoje braço direito do chanceler Carlos Ruckauf, acredita que o Chile conseguiu o que nenhum outro país latino-americano conseguiu: uma estabilidade e consolidação macroeconômica que lhe permitiu se transformar em "investment grade". "Embora difíceis, porém ao mesmo tempo simples, o Chile chegou a dois objetivos: ser agressivo como exportador, tanto abrindo mercados como administrando bem seu regime cambial, e uma solvência fiscal invejável", afirmou o economista da Fundação, um dos mais respeitados escritórios de consultoriafinanceira e econômica do país.Entretanto, lembrou Pérez, o grande problema é como chegar a esses objetivos. "Essa não é uma questão ligada apenas a ideologia e desejos. Essas metas exigem responsabilidade e seriedade fiscal." Para Pérez, se a Argentina quiser chegar ao que o Chile é hoje terá trabalhar muito, mas muito, em cima desses dois aspectos. Para isso, acrescentou, são necessárias decisões políticas importantíssimas que permitam conduzir políticas cambial e monetária, com as quais a Argentina não está acostumada a lidar."Por mais que a Argentina tenha de passar e sofrer o que o Chile sofreu (megadesvalorização de sua moeda e quebradeira de bancos e empresas em 1982), nunca podemos perder de vista a referência chilena", discursou o economista. É claro, lembrou Pérez, que a Argentina não é o Chile e Duhalde não é Pinochet, mas o país não pode deixar de buscar esse objetivo, nada simples e nem muito rápido de ser obtido."Corralito"O economista disse que antes de mais nada a Argentinaterá de resolver problemas considerados seríssimos e que estão deixando o país à beira do caos. "O tema básico é a questão do corralito financeiro (congelamento dos depósitos), mas, para isso o governo precisa tomar as decisões que exigem a situação do sistema financeiro e assumir os custos", alertou Pérez, em entrevias à Agência Estado.Ele afirmou que as decisões da administração Duhalde na área financeira não podem ser tomadas em cima de pressões dopúblico (que exigem flexibilização do congelamento) e dos bancos (que não têm dinheiro em caixa para devolver), caso contrário o sistema irá à falência. "O governo precisa dizer claramento ao público que a restrição financeira que está aí não é por pouco tempo. Pode até flexibilizar, mas não muito, para resolver parte da demanda do público", alertou Pérez.Ele não poupou elogios ao Brasil e ao presidente do Banco Central, Armínio Fraga, que, de acordo com ele, soube conduzir de "forma brilhante" a política cambial e monetária do país desde a desvalorização do real, em 1999, e as negociações com o Fundo Monetário Internacional (FMI). "Aquestão é que a crise brasileira naquele ano não foi caótica e complexa como está sendo a da Argentina. A grande diferença é que a Argentina tem há mais de dez anos um esquema perverso de aplicação (pesos e dólares) no sistema financeiro. É aí onde está a complexidade argentina e da qual surgiram os três Ds de uma vez só", explicou o economista, ao se referir ao default, desvalorização e congelamento dos depósitos. Para ele, os três "Ds" nada mais foram do que a oficialização da inconsistência da conversibilidade, que durou pouco mais de uma década.Leia o especial

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.