Economista diz que Argentina quer ganhar tempo

O ex-diretor do Banco Central e economista do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais, Cássio Tadeu de Freitas, disse hoje que a fixação da taxa dupla do dólar na Argentina foi feita para o governo ganhar tempo e não despertar uma revolta maior por parte da população. Segundo ele, mesmo sabendo que não vai dar certo a curto prazo, o esquema foi adotado porque o País está politicamente fragilizado e poderiam surgir novos movimentos políticos. Em entrevista concedida esta manhã à Rádio Eldorado AM, Freitas lembrou que todos os países que recentemente deixaram suas moedas mais livres não conseguiram promover a desvalorização que queriam."O México, em 95, na Ásia, em vários países, e também aqui no Brasil nós tentamos essa fórmula e não deu certo. Na Argentina, não será muito diferente. Mas eles não tinham muitas alternativas. Se ela começasse com uma desvalorização única, uma flutuação, como a que nós temos aqui, poderia provocar uma cotação muito alta do dólar. Como a Argentina tem muitos passivos indexados em dólar, uma alta exagerada da moeda americana no começo poderia levar a um susto de expectativa muito forte".O economista observou que, também num primeiro momento, a Argentina não conseguirá solucionar os problemas de gastos excessivos e o descontrole fiscal nas províncias. Para ele, a Argentina jamais poderia conseguir isso estando em recessão e o próprio FMI contribuiu um pouco para o agravamento da situação ao ter exigido déficits fiscais mínimos ou zero para um país nessas condições."O problema central da crise, hoje, ao meu ver, é a competitividade da Argentina que ela perdeu ao longo dos últimos dois anos. O problema fiscal existe, mas, na medida em que ela resolve o problema da competitividade ao mudar o regime cambial, automaticamente a economia responderá positivamente dentro de uns seis ou sete meses. Ao reagir favoravelmente, os impostos aumentarão e o governo poderá implementar uma política de corte de despesas, mas com a economia crescendo e não em recessão".Cássio Tadeu de Freitas lembrou que, em 1999, ao mudar o regime cambial, o Brasil, em condições bem melhores do que as da Argentina, também custou para sair da crise. Ele recordou que todos os índices foram prejudicados, o déficit fiscal piorou, os juros subiram e só depois de alguns meses a situação se estabilizou. O economista entende que, na Argentina, o quadro não será diferente. "A Argentina deverá levar um tempo maior para sair da crise, mas só o fato de ela estar saindo dessa camisa de força já é uma grande vantagem. E ela está saindo dessa situação num momento em que os juros nos Estados Unidos estão baixos e isso é bom. Do contrário, fica difícil para qualquer país sair da crise".Leia o especial

Agencia Estado,

07 de janeiro de 2002 | 10h22

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