Christina Rufatto/Estadão - 28/8/2018
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mercado

Via Varejo anuncia nova oferta de ações que pode movimentar até R$ 4 bilhões

Economista diz que, se reformas avançarem, investimento crescerá e dólar vai a R$ 3,75

Para sócio da Tendências Consultoria, mudanças nas áreas administrativas e tributária vão atrair investidor para o País

Entrevista com

Nathan Blanche, economista

Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2020 | 11h28

BRASÍLIA - Com décadas de experiência no mercado de câmbio brasileiro, o economista Nathan Blanche, sócio da Tendências Consultoria Integrada, demonstra otimismo com os rumos tomados pelo governo de Jair Bolsonaro na área econômica. Para ele, se as reformas continuarem em 2020, os investimentos estrangeiros no Brasil aumentarão e o dólar poderá retornar aos R$ 3,75 no curto prazo.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou ao Estado que a proposta de reforma para a área administrativa deverá ser encaminhada à Câmara entre o fim deste mês e o início de fevereiro. Em relação à reforma tributária, a ideia é apresentar o projeto de forma quase simultânea ao da administrativa, pois já haveria acerto para ser analisado por comissão mista do Congresso.

Em entrevista ao Estadão/Broadcast, Blanche tratou com normalidade a saída de US$ 44,8 bilhões líquidos do País no ano passado, o que representou um recorde na série histórica do Banco Central. Segundo ele, isso ocorreu porque, com a taxa básica de juros, Selic, em níveis baixos, as operações de carry trade - em que fundos e empresas pegam dinheiro no exterior e aplicam no Brasil, de olho nos juros - deixaram de ser tão atrativas. “Acabou a mamata”, pontuou.

Blanche também elogiou as atuações do Banco Central no câmbio em 2019, por meio de leilões à vista de dólares e operações com swaps (reversos e tradicionais). “Hoje temos uma taxa de câmbio muito mais flutuante”, afirmou.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

Houve saída de US$ 44,8 bilhões do País em 2019. Como o senhor viu este movimento?

Hoje, você capta dinheiro a 1,5% ao ano lá fora, mas aplica a uma taxa de juros, aqui no Brasil, quase negativa, porque a Selic está em 4,50% ao ano. Se você tirar 20% de Imposto de Renda, ou 0,9 ponto porcentual, vai dar 3,60%. Isso é quase a projeção da Focus para a inflação medida pelo IPCA. O carry trade deixou de ser atrativo.

Muitos investidores saíram do Brasil e, nesse processo, o BC fez operações de venda à vista de dólares, para dar conta da demanda por moeda. O senhor vê problema na redução das reservas internacionais em função disso?   

Ao contrário. O Brasil saiu ganhando. Inclusive, as vendas de reservas neste nível permitiram a realização de lucro por parte do Banco Central.

Isso porque o BC comprou dólares a um preço mais baixo em anos anteriores...   

Exato. Ele vendeu o ativo muito melhor do que comprou.

O BC deve continuar a vender dólares? Existe um nível ótimo para as reservas?   

Depois das reformas econômicas, o prêmio de risco do País começou a cair. Se o Brasil fizer o dever de casa, se aprovar novos projetos nos próximos meses, como a PEC Paralela da Previdência e a reforma administrativa, e se não houver rompimento do teto de gastos e da regra de ouro, não é só o estrangeiro que vai voltar a investir aqui não. O próprio brasileiro vai investir mais. Assim, o BC não vai precisar vender mais dinheiro, porque vai haver mais dinheiro. O investimento externo vai aumentar.

Houve um fluxo grande de saída de dólares do Brasil no ano passado. Esse dinheiro vai voltar? 

O dinheiro vai voltar, porque no mundo estão sobrando US$ 17 trilhões, que não têm abrigo. As taxas de juros estão negativas em todos os países ricos, não há o que fazer com o dinheiro. Se o Brasil continuar nesta trajetória, o fluxo vai se transformar em positivo. No caso da taxa de câmbio, eu a vejo em R$ 3,75 em um curto espaço de tempo se, de fato, o País acelerar as reformas e ficar livre da insolvência fiscal.

Alguns participantes do mercado financeiro criticaram o BC por realizar, no ano passado, leilões de venda à vista de dólares e, simultaneamente, leilões de swap. A crítica era de que, com isso, o dólar permaneceu em níveis elevados (a moeda americana à vista terminou 2019 cotada a R$ 4,0118).   

Isso é uma crítica equivocada. A função do BC é evitar que fatores exógenos gerem movimentos bruscos na taxa de câmbio. Se ele não atuasse, o dólar iria para R$ 5,00. Isso promoveria o risco de insolvência. O BC tapou o buraco de uma demanda, porque ele reduziu a taxa de juros e acabou com a mamata do carry trade.

Mas por que não fazer apenas o leilão à vista?

Porque ele estaria distorcendo a taxa de câmbio. O BC quis anular o efeito da intervenção na formação da taxa. Se fizesse a operação em apenas uma ponta, ele estaria distorcendo a taxa de equilíbrio. Assim, o BC atuou na oferta de um lado e na demanda de outro, gerando um grande benefício. Hoje temos uma taxa de câmbio muito mais flutuante e, se as reformas econômicas continuarem, não tenho dúvidas de que o câmbio vai apreciar.

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