'Economista gosta muito de pajelança', diz Belluzzo

Para Belluzzo, o pior do pessimismo já passou e é preciso que se mantenha o mínimo de racionalidade nas projeções

Entrevista com

Luiz Gulherme Gerbelli, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2013 | 02h12

O economista Luiz Gonzaga Belluzzo acredita que o pior do pessimismo passou. "Os empresários sentem que há mudança na forma de relação do governo com eles." Para ele, é preciso manter a racionalidade no debate econômico. "Economista gosta muito de pajelança. Vamos manter as coisas nos níveis de razoável racionalidade."

As previsões para o crescimento deste ano e de 2014 estão sendo reduzidas. Faz sentido todo esse pessimismo para a economia brasileira?

LUIZ GONZAGA BELLUZZO - Esse tratamento nas expectativas é uma coisa muito importante em economia e ao mesmo tempo muito difícil. Por exemplo, eu vi outro dia alguém dizendo 'que a inflação no ano que vem seria muito alta'. Essa pessoa que falou isso tem um baixo desempenho no Focus (relatório divulgado semanalmente pelo Banco Central). A gente precisa tomar cuidado com o que fala. Eu me lembro muito bem de 1998 quando estava claro que teríamos uma desvalorização (do real). Muitos economistas diziam que não aconteceria nada. É muito difícil fazer uma previsão para 2014 e até um pouco precipitado, porque não há base real para fazer essa projeção. Pode ser que isso mude para melhor ou pior, dependendo da interação entre a mensagem que o governo dá e a forma de receber dos agentes privados. É uma questão que depende de interpretação. As expectativas numa economia de mercado capitalista são muito mutáveis. Neste momento, pode-se dizer que o clima era pior há dois meses ou um mês. Eu tenho notado com os empresários que as coisas estão mudando um pouquinho. Vamos ver como é que se dá a relação entre governo e setor privado, que essa é fundamental nesse caso.

Como se dá essa mudança de sensação?

LUIZ GONZAGA BELLUZZO - Vai depender muito da capacidade do governo. E, por exemplo, os leilões de concessões também vão ser importantes. Se eles forem bem-sucedidos, certamente o nível de confiança vai melhorar.

O que o sr. sentiu que melhorou entre os empresários?

LUIZ GONZAGA BELLUZZO - É minha sensação de conversar com eles. Eles sentem que há uma mudança na forma de relação do governo com eles, que a comunicação para alguns setores está melhorando. Isso foi o que eu senti.

Qual pode ser o impacto do pessimismo na economia?

LUIZ GONZAGA BELLUZZO - A economia está crescendo pouco, abaixo do potencial. As expectativas inflacionárias como fizeram lá atrás se frustraram. Tem gente que tem baixo desempenho no Focus, que nunca acerta nada. É preciso tomar muito cuidado. Tem de ser criterioso para falar. Eu acho que o desempenho da economia este ano vai ser positivo, porém modesto. Se (a economia) se recuperar ou se ainda tiver sucesso no leilão, certamente vai aumentar um pouco a confiança. Mas o resultado vai aparecer mais tarde. O resto é o seguinte: é um exercício de pajelança. Economista gosta muito de pajelança. Não vamos fazer pajelança, vamos manter a coisas nos níveis de razoável racionalidade.

O sr. acha que está faltando essa racionalidade?

LUIZ GONZAGA BELLUZZO - Sabe o que acontece, existe de um lado e de outro excesso de partidarização da discussão. E é claro que cada um tem seu ponto de vista. Mas você não pode partidarizar a discussão, não pode se servir de instrumento para isso.

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