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Economista nega que países emergentes sejam a 'bola da vez'

Mesmo que haja problemas no caminho, para Joseph Gagnon o panorama é ainda bom para os emergentes

O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2013 | 02h04

Em 15 de setembro de 2008, o banco americano de investimentos Lehman Brothers declarou insolvência e pediu a proteção do capítulo 11 da Lei de Falências. O colapso de uma emblemática instituição, com 185 anos de história em Wall Street, acendeu o estopim da maior crise financeira mundial desde a quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929.

Passados cinco anos, o Lehman Brothers mostra-se saneado sob o comando do britânico Barclays, que o comprara no dia seguinte à quebra. Mas a economia mundial, ainda sob os efeitos da crise financeira e da recessão de 2009, tateia uma lenta recuperação, minada por dilemas ainda não resolvidos pelos governos de países avançados e emergentes.

Os efeitos da falência do Lehman Brothers, em tese, poderiam ter sido contornados se as suas causas não estivessem disseminadas pelos mercados financeiros americano e europeu. Centenas de instituições, entre as quais poderosos bancos dos Estados Unidos, tinham igualmente apostado na lucratividade de papéis atrelados à dívida imobiliária e nos próprios mecanismos de concessão de crédito hipotecário a milhões de americanos sem capacidade de honrá-los.

Bancos, fundos de pensão e investidores se alimentaram desses títulos podres, os chamados subprime, escudados na derrubada de leis de regulação do setor desde meados dos anos 90 nos EUA.

"Não acho que as coisas seriam muito diferentes, depois de dezembro de 2008, se o Lehman não tivesse falido", afirmou ao Estado Joseph Gagnon, especialista do Peterson Institute of International Economics e ex-diretor associado de Assuntos Monetários do Federal Reserve.

"Independentemente do Lehman, o colapso da bolha imobiliária ocorreria. Esse episódio mostrou que os consumidores tinham de parar de gastar, e os bancos tinham de parar de emprestar, para equilibrar seus balanços", completou.

A queda do Lehman Brothers, porém, foi emblemática. Na noite de 14 de setembro, o então presidente dos EUA George W. Bush negou-se a atender o telefonema de Dick Fuld, comandante da instituição. Fuld faria seu último e desesperado apelo a Bush pelo aval do governo à aquisição do Lehman pelo Barclays. Não foi ouvido.

O gabinete de Bush, amparado nos preceitos do laissez-passer, já estava ciente da ausência de garantias ao negócio da autoridade reguladora da Grã-Bretanha. Ao deixar o Lehman falir, Bush tentou desmontar a tese de que algumas instituições são grandes demais para quebrar.

Semanas depois, de joelhos, o então secretário do Tesouro Henry Paulson implorou ao Congresso a aprovação do pacote emergencial de US$ 700 bilhões para evitar o dominó de falências de instituições financeiras do país.

Contaminação. O pacote de socorro saiu, mas não evitou a recessão de 2009. A atividade americana recuou 3,1%. Na Europa, a contaminação de bancos pelo subprime exigiu dos governos nacionais pacotes de socorro para evitar o colapso do sistema financeiro. Um círculo vicioso começou a movimentar-se. As dívidas soberanas crescentes levaram os mercados a aumentar a remuneração de novos empréstimos aos governos europeus e, com isso, dispararam o temor do calote.

O desemprego em alta esmoreceu o consumo e a produção. O Produto Interno Bruto (PIB) na zona do euro caiu 4,1% naquele ano. No Japão, onde grandes bancos eram credores do Lehman, o recuo foi de 6,3%. A reboque, a economia mundial encolheu 0,5%, amparada na expansão dos emergentes.

Passados cinco anos, a zona do euro conseguiu superar, a duras penas, as ameaças de dissidência da união monetária. O Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial preveem novo recuo do PIB desse conjunto de países neste ano, de 0,6%, mas crescimento positivo de 0,9% para 2014. Para os EUA, as projeções são de expansão de 1,7%, neste ano, e de 2,7%, no próximo.

A economia mundial, conforme essas recentes estimativas, crescerá 3,1% e 3,8%, respectivamente, ainda alimentada pelo desempenho, ainda que mais modesto, dos emergentes.

"Vejo um crescimento muito devagar na Europa, mas recuperação decente nos EUA e no Japão. Para os mercados emergentes, o panorama ainda é bom, mesmo que haja problemas no caminho", previu Gagnon.

Os emergentes, para Gagnon, não são a "bola da vez" da crise de 2008. A tese vem sendo difundida por economistas como Richard Hausmann, da Harvard University, para quem o "entusiasmo pelos mercados emergentes está se evaporando", com a queda nas bolsas e o crescimento vagaroso.

Otaviano Canuto, conselheiro da Presidência do Banco Mundial e ex-vice-presidente dessa instituição, diz que "não compra essa estória". "Crise não é algo metafísico, que pode se transferir", assinalou. "Os emergentes, inclusive o Brasil, são vítimas da sua própria complacência." / D.C.M.

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