Economista prevê inflação de 30% na Argentina

A hiperinflação que apavorou os argentinos na década de 80 volta a pairar sobre o país e passou a ser o maior dos inúmeros problemas que o presidente Eduardo Duhalde terá de enfrentar até o final de seu mandato, em 2003. Quase 11 anos depois de ter permanecido com inflação praticamente nula, sob o regime de conversibilidade, a Argentina poderá registrar este ano um aumento de no mínimo 30% no custo de vida, de acordo com as primeiras projeções feitas pelos principais escritórios de consultoria econômica e financeira do país.Essa estimativa de inflação ? se os preços não dispararem ainda mais nos próximos meses ? é o dobro do que vem sendo prometido pela administração Duhalde ao FMI. "O corralito (congelamento parcial dos depósitos), que parecia ser o maior problema do governo, ficará atrás diante do que poderá ser a inflação", disse à Agência Estado o economista da Fundação Capital, Guillermo Corzo.O economista, responsável pelo primeiro relatório da fundação sobre o comportamento dos preços depois do fim da conversibilidade, disse que, considerando a inflação de janeiro (2,3%) e o comportamento dos preços nos primeiros dez dias de fevereiro (2%), a Argentina poderá chegar até o final do ano com um aumento de 28% a 30% no custo de vida. "Para piorar a situação, os combustíveis, que já tiveram seus preços aumentados, devem provocar repasse a todos os preços", afirmou Corzo, por telefone de Buenos Aires.O economista, que fez mestrado na PUC-Rio no período dos planos Collor 1 e Collor 2, disse que a sensação de ver os preços aumentando na Argentina depois de mais de dez anos de estabilidade é assustadora. "A cesta básica aumentou quase 60% em menos de dois meses e, agora, a impressão é que o governo parece estar perdendo o controle de tudo", disse. Para Corzo, o tempo do governo está se esgotando, visto que, até agora, a equipe econômica do ministro Jorge Remes Lenicov não conseguiu elaborar um plano que permita controlar uma eventual explosão inflacionária. "Sem políticas fiscal e monetária definidas, sem Orçamento para o ano pronto e sem acordo com o FMI será difícil reunir condições para evitar o pior", afirmou.O pior, de acordo com Corzo, poderá decorrer do aumento do custo de vida. "Um pai de família que ganhava 300 pesos até antes da desvalorização conseguia comprar alimentos básicos com 200 pesos. Hoje, esse salário não alcança mais. Me pergunto o que ocorrerá em mais alguns meses quando os preços disparam ainda mais?"O estudo da Fundação Capital aponta quatro fatores determinantes para a evolução dos preços nos próximos meses. Dois deles podem pressionar significativamente a inflação: o comportamento da taxa de câmbio, que está no patamar de 2,10 a 2,30 pesos por dólar, e a eventual indexação das tarifas dos serviços públicos.Por outro lado, no entanto, a recessão, que já se estende há quase quatro anos, e o "corralito" devem funcionar com fatores de contenção de uma eventual disparada de preços. No estudo, Corzo aponta alguns exemplos que permitiram países que passaram por crises semelhantes a superar problemas decorrentes da desvalorização. "Chile (1990), México (1994) e Brasil (1999) conseguiram, por meio da execução de planos que envolveram substancias reformas estruturais e, principalmente, da organização de uma estratégia monetária, cambial e fiscal aplicada em forma conjunta e consistente, enfrentar a crise econômica", disse Corzo.Leia o especial

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