Beto Nociti/Banco Central
Beto Nociti/Banco Central

Economistas fazem aposta unânime em manutenção da Selic em 2% na última reunião do ano do Copom

Taxa básica de juros da economia está no menor nível da história; instituições ouvidas pelo Projeções Broadcast acreditam que novo ciclo de alta só deve começar em agosto do ano que vem

Cícero Cotrim, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2020 | 10h38

Analistas do mercado financeiros fazem aposta unânime de que o Banco Central (BC) não vai alterar a taxa básica de juros na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) que termina nesta quarta-feira, 9. Para todas as 47 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast, a Selic deve continuar em 2,0% e encerrar 2020 no menor nível da história. 

Em 2021, as casas projetam desde Selic estável em 2,0% até aumento dos juros a 4,75%, com a média das estimativas em 3%. Os analistas acreditam que um novo ciclo de aumento dos juros deve começar só em agosto do ano que vem.

Desde a última reunião do comitê, no dia 28 de outubro, a permanência da incerteza fiscal, combinada à inflação mais alta do que o esperado, chegaram a antecipar a aposta de algumas casas para o aumento da Selic. A estimativa dos analistas ouvidos pelo Projeções Broadcast para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2020 subiu de 3,60% para 4,24%, acima do centro da meta, depois que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) anunciou a decisão de retomar o sistema de bandeiras tarifárias neste mês.

Por outro lado, o mercado recebeu bem uma mudança no tom do discurso do governo, com sinais mais diretos de que o auxílio emergencial não será estendido. A decisão da Aneel também acabou comprando espaço de manobra para o BC, ao reduzir a estimativa do mercado para o IPCA de 2021 de 3,50% para 3,30%, bem abaixo do centro da meta oficial, de 3,75%.

Por isso, a leitura é de que o BC deve confirmar na reunião desta quarta a continuidade da sua prescrição futura, ou "forward guidance", no jargão financeiro em inglês, regra segundo a qual se compromete a não elevar juros enquanto as expectativas e projeções de inflação de seu cenário básico se mantiverem abaixo do centro da meta, desde que o regime fiscal seja mantido e as expectativas de longo prazo permaneçam ancoradas.

“Até o dia 30 de novembro eu pensava em antecipar esse cenário de aumento de juros, mas a decisão da Aneel tirou 0,46 ponto porcentual da inflação de 2021 e jogou para dezembro de 2020”, explica o economista-chefe da Sicredi Asset, Ederson Schumanski. “A inflação no curto prazo ficou mais gorda, mas essa decisão tirou a gordura do horizonte relevante e do cenário-base do BC.”

Schumanski prevê taxa Selic estável em 2,0% até agosto de 2021, quando começa a subir até 3,25% em dezembro.

O ASA Investments avalia que a aceleração observada nas últimas leituras do IPCA configura uma série de pressões pontuais que devem se dissipar na virada para 2021, com a elevada ociosidade da economia. A casa estima que as projeções do cenário-base do BC para a inflação de 2021 subam de 3,10% para 3,20% e se mantenham em 3,30% para 2022. “Está claro que as condições da prescrição futura se mantêm”, afirma o economista-chefe do ASA Investments, Gustavo Ribeiro.

O economista percebeu redução do risco fiscal desde a última reunião do Copom, embora reconheça que há uma surpresa de inflação corrente. Por isso, ele espera que o BC use o comunicado desta quarta para comentar o choque de curto prazo na inflação, que parece ter começado a incomodar o mercado. O ASA Investments espera Selic estável em 2,0% até o início de 2022, com IPCA de 3,20% no ano que vem.

O economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez, espera alguma mudança no tom do comunicado do Copom de dezembro. Desde a última reunião, a eleição do democrata Joseph Biden para a presidência dos Estados Unidos elevou o otimismo e indica a criação de um ambiente mais favorável para países emergentes, o que deve surgir na comunicação da autoridade monetária, segundo Sanchez.

“O que devemos ver é uma consideração acerca disso, mas não existe nada que indique uma mudança do forward guidance”, explica o analista, que prevê aumento da projeção do BC para o IPCA de 2020 e redução para o IPCA de 2021. Sanchez espera Selic estável em 2,0% até o início de 2022.

Por outro lado, o economista Pedro Henrique França, do Banco BRP, espera que o BC use o próximo comunicado para começar a preparar o terreno para uma subida de juros em 2021. O aumento mais rápido do que o previsto dos preços de commodities, junto com uma recuperação mais rápida do que o esperado para a atividade, sinalizam que o aperto monetário pode ter de ser adiantado, diz.

“O BC trabalhava com um cenário muito confortável há três meses, mas nosso cenário é hoje menos confortável por causa da recuperação da demanda”, afirma França, que prevê queda de 4,50% do Produto Interno Bruto (PIB) de 2020 e crescimento de 4,0% em 2021, com IPCA de 3,90% já no ano que vem. 

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