Economistas temem que EUA sofram longa crise

Paul Krugman lidera o grupo de especialistas que vê os Estados Unidos em risco de cair num longo período depressivo

, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2010 | 00h00

RIO

Alguns dos maiores economistas dos Estados Unidos estão envolvidos neste momento num debate agressivo e exasperante sobre o diagnóstico dos problema econômicos do país.Liderado por Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia, blogueiro e colunista do New York Times, há um grupo minoritário, mais muito estridente, que vê o país na chamada "armadilha de liquidez" keynesiana (do John Maynard Keynes, o célebre economista inglês falecido em 1946).

Eles recomendam novos e vigorosos impulsos fiscais e monetários para evitar o pior. Isso significa mais gastos do governo (mesmo com um déficit público projetado em 9,2% do PIB para este ano), e mais injeção de dinheiro pelo Federal Reserve (Fed, banco central), com a compra de títulos em poder do público. Baixar mais a taxa básica de juros praticamente deixou de ser uma opção, porque ela já resvala em zero.

Armadilha de liquidez. Numa armadilha de liquidez, o alto desemprego e a falta de confiança no futuro de consumidores e empresários derrubam continuamente a demanda, o que, por sua vez, realimenta a insegurança, num ciclo vicioso. Um risco adicional é o de se cair em deflação, já que a oferta de bens e produtos pode superar a demanda. A deflação faz com que se adie compras (para esperar o barateamento), além de aumentar o valor real das dívidas.

Em ambos os casos, inibe-se ainda mais o consumo e o investimento. Krugman, aliás, acha que uma saída para o problema atual seria o Fed avisar os americanos de que vai tentar inflacionar a economia propositadamente. Isso poderia acelerar compras, e evitar a deflação.

Exemplo do Japão. O prêmio Nobel aponta o Japão a partir do início da década de 90 como exemplo do risco pelo qual os EUA estariam passando. Depois do estouro da bolha imobiliária e acionária do Japão no começo da década de 1990, o país nunca mais escapou da combinação de crescimento muito lento e fases intermitentes de deflação.

A inflação americana está de fato muito baixa, embora ainda não haja deflação. Nas minutas da reunião de junho do Comitê Federal do Mercado Aberto (que toma as decisões de política monetária)do Fed, a projeção do núcleo da inflação dos gastos pessoais de consumo em 2010 é de 0,8% a 1%, o que significa uma redução ante a projeção anterior do Fed, em abril, de 0,9% a 1,2%.

Mas é a persistência do desemprego perto de 10% que tem trazido mais preocupações, pelos efeitos negativos que ela pode ter sobre o consumo. Outra característica inquietante é o fato de que o tempo médio de desemprego dos americanos saltou de menos de dez semanas, antes da crise, para mais de 25 semanas, em junho de 2010. O maior nível anterior, numa série iniciada em 1967, foi de 12,3 semanas em maio de 1983.

A corrente majoritária dos analistas e o próprio Fed, presidido por Ben Bernanke, um respeitadíssimo economista, têm uma visão menos alarmista que a de Krugman. O Fed ainda não vê um cenário de deflação, embora alguns diretores já tenham mencionado a questão, e o BC americano tenha pronto um menu de opções para enfrentá-la caso a situação se deteriore.

Roberto Prado, economista do Itaú Unibanco, não observa, no momento, o cenário descrito por Krugman. Prado nota que há estabilização da taxa de poupança do setor privado (o que quer dizer que o consumo parou de cair), e que as empresas estão elevando o investimento. "É uma volta da demanda, mesmo que lenta." / F.D.

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