Economistas veem na ata sinais de novo corte na Selic

Economistas consultados pela Agência Estado enxergam na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), divulgada na manhã desta quinta-feira, sinais de que a autoridade monetária deverá voltar a cortar a taxa básica de juros da economia, a Selic. No último dia 11, o Copom decidiu cortar a taxa em meio ponto porcentual, para 8% ao ano.

MARIA REGINA SILVA, FRANCISCO CARLOS DE ASSIS, Agencia Estado

20 de julho de 2012 | 13h32

Na avaliação de Felipe Tâmega, economista-chefe da Modal Asset Management, esses sinais são vistos nas "poucas" mudanças feitas na ata, relativas tanto à economia doméstica quanto à externa, o que reforçam a ideia de que a Selic poderá sofrer pelos menos mais um corte de 0,50 ponto porcentual na reunião de agosto.

"De agosto em diante, vai depender de como estará a economia internacional e de como a atividade interna irá reagir aos incentivos, se estará forte, como destacou na ata o Banco Central", disse Tâmega.

Na opinião do economista, o fato de ata ter apontado recuo na probabilidade de ocorrência de eventos extremos nos mercados, mas ao mesmo tempo ter identificado consolidação de perspectiva da atividade mais moderada, sinaliza que o BC não vê uma ruptura da economia internacional, mas que a situação pode ficar ainda pior do que o mercado imaginava. "O Banco Central apontou que a questão externa continua a ter viés desinflacionário sobre a economia brasileira, mas a combinação de como essa desinflação vai acontecer mudou um pouco", afirmou.

Um outro ponto citado por Tâmega diz respeito ao temor do BC com o avanço da inflação no atacado recentemente, já que o Copom excluiu da ata de julho a avaliação de que a moderação dos índices de preços gerais (IGPs) pode ajudar na dinâmica dos índices de inflação. "Como os IGPs estão acelerando bastante, o BC se rendeu ao efeito deflacionário dos preços no atacado que não está mais ocorrendo", afirmou.

Com relação à parte fiscal, o economista ressaltou a mudança no parágrafo 32 no qual o BC diz que "O Comitê pondera que iniciativas recentes apontam cenário de neutralidade do balanço do setor público". Na ata passada, comentou, o Copom usou o termo "contenção de despesas do setor público", o que, para o economista, indica que a política fiscal não é mais contracionista, mas neutra.

"A própria execução da política fiscal está mais fraca, com a atividade econômica tendo impacto na arrecadação, que tem sido majorada pela série de iniciativas do governo de abrir mão de certos impostos, como para automóveis, na tentativa de ajudar a indústria", explicou, completando que o Copom está se rendendo à realidade da execução fiscal deste ano e que, por isso, a Modal já trabalha com um superávit primário abaixo de 3,1%, de 2,6% do Produto Interno Bruto (PIB) e com uma expansão da economia de 1,80% em 2012.

Para o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luís Otavio de Souza Leal, as poucas mudanças que a ata trouxe foram mais conservadoras do que esperava o mercado financeiro. Os analistas, segundo ele, esperavam que a ata fosse trazer sinais claros de que o processo de corte de juros já estaria no fim.

Pela leitura que fez da ata, Souza Leal inferiu que a autoridade monetária não deverá cortar a taxa básica de juros muito além dos atuais 8%, já que continua apostando em uma recuperação robusta da atividade econômica no segundo semestre. Deve levá-la a 7,5% ao ano na reunião que encerra no dia 29 de agosto e aguardar o comportamento da atividade para ver o que fará em outubro, nos dias 9 e 10, quando o colegiado se reúne novamente. "A ata faz com que a reunião do Copom em outubro fique em suspense", diz Souza Leal.

Ainda de acordo com o economista, a partir de agosto a ata da reunião do Copom deverá começar a discutir a quebra de safra nos Estados Unidos, que passa pelo período de seca mais forte desde 1956. "Isso vai pegar forte na economia mundial e brasileira", prevê o chefe do Departamento Econômico do ABC Brasil.

O economista-sênior do Espírito Santo Investment Bank (Besi Brasil), Flávio Serrano, acredita que BC deverá esperar dados da atividade econômica para ver o que fará com a taxa de juros em outubro. Para agosto, ele também espera que a autoridade monetária vai cortar a Selic em 0,5 ponto porcentual, para 7,5% ao ano, mas para a reunião de outubro ainda há incerteza.

Ele destaca que o conteúdo desta ata é muito similar ao da anterior, mostrando que a decisão foi tomada com base no mesmo arcabouço econômico que norteou a reunião de maio. "A ata mostra que os diretores do BC consideraram que o cenário externo é adverso e imputa risco desinflacionário sobre a economia."

No entanto, de acordo com o economista do Besi Brasil, a ata traz argumentos tanto em prol da continuidade do processo de corte de juros quanto em direção a uma maior cautela. E isso fica claro no trecho da ata onde se lê que "diante do exposto, mesmo considerando que a recuperação da atividade vem ocorrendo mais lentamente do que se antecipava, o Copom entende que, dados os efeitos cumulativos e defasados das ações de política implementadas até o momento, qualquer movimento de flexibilização monetária adicional deve ser conduzido com parcimônia."

"Me parece que o BC, como nós analistas, quer ter a certeza de que a recuperação que ele espera para o segundo semestre vai mesmo se confirmar", diz Serrano.

Até agosto, de acordo com o economista do Besi Brasil, o BC só terá os dados de junho e alguma informação inicial de julho. "Na reunião de outubro o BC já terá os dados de julho, os iniciais de agosto e alguns coincidentes de setembro e terá presente também o que de fato estará acontecendo com a economia no terceiro trimestre", explica Serrano, para quem em outubro a taxa de juros poderá ter menos espaço para continuar caindo.

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