Ecovix demite 3,2 mil funcionários e prepara pedido de recuperação judicial

Com dívidas de R$ 7 bi, empresa suspendeu operação após rescisão de contrato com a Petrobrás para produção de cascos de plataformas

Alexa Salomão, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2016 | 05h00

A Engevix Construções Oceânicas (Ecovix) anunciou nesta segunda-feira, 12, a demissão de 3,2 mil funcionários em seus estaleiros na cidade de Rio Grande, no Rio Grande do Sul. O contrato de fornecimento do estaleiro com a Petrobrás também foi rescindido. Com dificuldades para pagar as dívidas, que já superam os R$ 7 bilhões, é dado como certo que a Ecovix vai entrar com pedido de recuperação judicial nos próximos dias. A recuperação é considerada inevitável, uma vez que vários dos mais de 600 credores entraram com pedidos de falência na comarca de Rio de Grande.

Ecovix tem como sócios a Funcef, o fundo de pensão dos funcionários da Caixa Econômica Federal, e o grupo Engevix, alvo de investigações policiais dentro das operações Lava Jato, que apura esquemas de corrupção na Petrobrás, e da Greenfield, que investiga fraudes bilionárias contra os maiores fundos de pensão de estatais – incluindo o Funcef. O terceiro bloco de sócios, um grupo de empresas japonesas liderado pela Mitsubishi Heavy Industries, deixou a parceria no começo deste ano.

A assembleia com os trabalhadores ocorreu na manhã de ontem – e ontem mesmo uma fila gigantesca se formou no pátio da empresa para que uma força tarefa da área de Recursos Humanos pudesse agilizar as rescisões. Pelo acordo, a Ecovix fará os pagamentos à vista. A empresa, que já teve 12 mil trabalhadores, vai manter cerca de 300 para fazer a manutenção das instalações e dos equipamentos.

Inicialmente, a empresa tinha um contrato de US$ 3,5 bilhões para entregar a Petrobrás oito cascos de plataformas do tipo FPSO (sigla em inglês de unidade flutuante que processa, armazena e descarrega petróleo). Três foram concluídas – a última delas foi embarcada na sexta-feira passada. Duas estão em fabricação na China. Mas as três últimas foram suspensas. A empresa já havia desistido de cumprir o contrato com a Sete Brasil, no valor de quase US$ 1,5 bilhão, que previa a entrega de três sondas. Sem ter o que mais produzir, decidiu-se pela demissão em massa.

Nesta segunda-feira, o prefeito de Rio Grande, Alexandre Lindenmeyer, tinha como estratégia sensibilizar os governos estadual e federal para que intercedessem junto a Petrobrás em favor da região, negociando com a estatal uma maneira de ao menos manter a produção dos três cascos restantes em outro estaleiro da região. “Seria uma forma de aliviar a enorme crise que estamos vivendo”, disse Lindenmeyer. Há três anos, a indústria naval empregava 24 mil trabalhadores. Com o corte de ontem, o contingente caiu para menos de 3 mil.

Reestruturação. Há um ano, a área de reestruturações do banco Brasil Plural busca uma solução para a Ecovix. A tarefa não é fácil. De um lado, é preciso impedir que a bilionária dívida da Ecovix arraste o grupo. A Engevix tem uma dívida alta, mas menor, que beira R$ 2,5 bilhões. No entanto, tem um histórico “tóxico”, com o envolvimentos em casos de corrupção, o que pode contaminar a Ecovix.

Segundo o Estado apurou, uma linha de negociação é convencer os principais credores a aceitar os ativos do estaleiro como pagamento. Cerca de 70% da dívida está concentrada em cinco empresas: Petrobrás, Bradesco, Banco do Brasil, a americana NOV (National Oilwell Varco) e a chinesa Cosco (China Ocean Shipping Company).

Também busca-se uma saída para evitar perdas para a Funcef. Uma alternativa em discussão é permitir que ela passe de sócia a credora. Para ser ressarcida pelo seu investimento inicial, a Funcef teria receber mais de R$ 300 milhões.

O grupo Engevix foi duramente afetado pelas investigações policiais. Não apenas perdeu o crédito na praça. Teve a gestão afetada com a prisão de acionistas. Dentro da Lava Jato, o sócio Gerson de Mello Almada foi condenado pelo juiz Sérgio Moro a 19 anos de prisão, com a acusação de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa no caso da Petrobrás. Outro sócio, José Antunes Sobrinho, foi condenado a 21 anos de prisão, acusado de pagar propina nas obras da usina nuclear de Angra 3. O terceiro sócio, Cristiano Kok, assumiu o negócio. Kok chegou a ser denunciado na Lava Jato, mas foi absolvido por falta de provas. A gora, ele é investigado na Operação Greenfield, que apura fraudes no Funcef, Petros (Petrobrás), Previ (Banco do Brasil) e Postalis (Correio).

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