Edemar levou um pijama e espera voltar

Despejado, ex-banqueiro deixou tudo para trás; laudo de arquiteto mostrará se obras de arte foram falsificadas ou levadas da mansão

Paula Pacheco, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2011 | 00h00

O ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira, dono do quebrado Banco Santos, não perdeu a pose nem na hora de ser despejado da mansão de 4 mil metros quadrados na Rua Gália, na última quinta-feira. Depois de algumas idas e vindas e conversas com a equipe que foi cumprir a ordem do juiz Régis Rodrigues Bonvicino, decidiu que deixaria tudo para trás e levaria apenas um pijama a tiracolo.

E ordenou a um dos quatro empregados que fosse buscar a peça para que pudesse deixar o imóvel rumo a um flat na capital paulista. Aos presentes, avisou: "Vou deixar minhas coisas por aqui. Semana que vem estarei de volta". Ficaram no closet, segundo um dos presentes, pelo menos 500 ternos e gravatas. No closet de 220 metros quadrados, a mulher do ex-banqueiro, Marcia de Maria Costa Cid Ferreira, deixou quantidade semelhante de roupas e sapatos.

A pedido do juiz Bonvicino foram ao conhecido endereço no Morumbi (zona sul de São Paulo) para cumprir a ordem de despejo, além do oficial de justiça, o delegado Albano Fernandes e mais uma equipe de 20 policiais, acompanhados do engenheiro e perito Mateus Olmedo e do arquiteto Alberto Sauro. Edemar não pagou o aluguel de R$ 20 mil entre julho de 2004 e agosto de 2008. Em valor corrigido, a dívida chega a R$ 3 milhões.

O juiz foi cauteloso porque, comenta-se, teria sido alertado por donos de galerias que haveria um movimento para que algumas obras de arte originais espalhadas pela mansão fossem substituídas por falsificações e vendidas no mercado paralelo. Bonvicino preferiu que toda a ação fosse acompanhada por um delegado para que não se alegasse abuso de poder.

Suspeita. Para evitar um possível golpe, foi chamado o arquiteto italiano Alberto Sauro. A partir de quarta-feira, ele começa a fazer um inventário do acervo do ex-banqueiro. Em algumas poucas horas de observação na quinta-feira passada, Sauro suspeitou de que havia na mansão menos obras do que a quantidade apontada em catálogo organizado pela Justiça. "Visualmente, tive a impressão de não ter visto 4 mil peças. Algumas paredes estão bem vazias", disse.

Segundo um dos presentes na hora do despejo, Sauro teria sido informado por uma pessoa que conhece bem a mansão de que uma obra exibida nos jardins não estava mais no local. "Ainda é cedo para afirmar que falta alguma peça. Mas deu para perceber que o Edemar tem um carinho por aquelas obras. Parece haver uma ligação afetiva", comenta o arquiteto, formado pela Universidade de Veneza.

O engenheiro Olmedo foi nomeado para que pudesse avaliar as condições estruturais da casa. Toda construída com material importado, ao custo estimado de R$ 150 milhões, a mansão tem, por exemplo, um piso feito com um tipo de madeira só encontrada em poucos países do continente africano.

Em uma primeira vistoria, Olmedo viu rachaduras no teto, aparentemente causadas por infiltrações. Ao terminar a inspeção, o engenheiro terá um cálculo exato sobre o valor do imóvel - avaliado preliminarmente em cerca de R$ 80 milhões.

Lei para todos. Para o juiz Bonvicino, o despejo de Edemar foi exemplar. "A diferença é que este despejo se reveste de um aspecto moral, já que o ex-dono do Banco Santos não pagou 2 mil credores. Tornei a lei igual perante a todos. Ela não é só para o coitadinho que deve um aluguel de R$ 300."

Enquanto julgava o pedido de despejo feito pelo gestor da massa falida da Atalanta Participações e Propriedades, empresa laranja dona do imóvel, o juiz teria recebido o telefonema de um dos advogados de Edemar, que tentou comovê-lo com o estado emocional do cliente. "Ele está infeliz porque ama a casa", teria argumentado.

O juiz não deu importância à chantagem emocional e teria sugerido que Edemar procurasse outra casa, num recado de que não facilitaria a vida do banqueiro acusado de fraude. "Edemar tem a fantasia de que a casa é um bem de família e vai reverter a ordem de despejo. O instituto de bem de família não se aplica no caso de falência", observa.

O administrador judicial da massa falida, Vânio Aguiar, espera obter mais provas de que a casa foi construída com recursos do Banco Santos desviados para a Atalanta. Sabe-se que Aguiar abriu um procedimento falimentar em Miami e obteve bons resultados com o magistrado que cuida do caso lá no sentido de consolidar provas da conexão entre o Banco Santos e a Atalanta.

Até que o futuro da mansão seja definido, quem cuidará do imóvel será Roberto Brandão Teixeira, nomeado por Aguiar gestor da casa. Cabe a ele cuidar para que a mansão e os objetos de arte, mantidos por climatizadores, não se deteriorem.

Bonvicino espera que um banco ou o poder público se sensibilize e compre a mansão e o acervo para transformar em museu.

Luís Corvo, advogado de Edemar, não respondeu aos telefonemas do Estado.

PARA LEMBRAR

Aluguel nunca foi pago pelos Cid Ferreira

A intervenção do Banco Central no Banco Santos, em novembro de 2004, foi um dos fatos mais ruidosos do sistema financeiro. Não só pelo tamanho do rombo, mas por envolver um empresário amigo das câmeras e microfones, travestido de mecenas. A falência do Banco Santos deixou um passivo (atualizado pela correção monetária) de quase R$ 3,4 bilhões. O valor pertence a 1.969 credores.

A ação de despejo dos Cid Ferreira foi impetrada pela massa falida da Atalanta Participações e Propriedades Ltda., empresa que fazia parte do conglomerado do Banco Santos. Os gestores da massa da Atalanta reclamam de uma dívida relativa ao não pagamento de aluguéis da mansão pela mulher de Edemar, Márcia de Maria Costa Cid Ferreira.

A Atalanta alugou o imóvel para o casal a partir de junho de 2004, cinco meses antes da intervenção do Banco Central no Banco Santos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.