Dida Sampaio/Estadão
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Guardia acreditava que era impossível ignorar o desafio fiscal

O economista tinha grande preocupação com a descentralização de recursos em favor dos Estados e municípios; mesmo sem aumento do déficit, há perigosa desorganização de regras fiscais

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2022 | 04h00

O economista Eduardo Guardia unia firmeza com diálogo franco e princípios que tornavam possível a solução de problemas difíceis de forma racional e organizada.

No final do governo Michel Temer, no cargo de ministro da Fazenda, capitaneou um jantar realizado para aproximar o futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, do presidente do Senado da época, o emedebista Eunício Oliveira. A relação havia ficado tensa após a declaração de Guedes de que era necessário uma “prensa” no Congresso para aprovar a reforma da Previdência. Os congressistas não gostaram nenhum pouco da fala de Guedes.  

Para Guardia, essa aproximação era importante por causa da pauta no Congresso até o fim de 2018, que incluía o projeto de lei da cessão onerosa do pré-sal, uma Medida Provisória que destravava o leilão da Amazonas Energia e também a lei orçamentária de 2019.

Guardia havia costurado uma transição suave para a nova equipe econômica e preparado o chamado “livro branco”, com uma radiografia da situação econômica e sugestão de propostas para o novo governo.

Sem alarde, ainda durante a campanha começou a apresentar aos coordenadores de campanha dos pré-candidatos à Presidência a real situação das contas públicas.

Numa das suas últimas entrevistas no cargo, concedida a esta colunista, chamara atenção para o fato de que o Brasil tinha um problema fiscal monumental e que não dava para ignorar o tamanho desse desafio nos próximos anos. Via com grande preocupação a descentralização de recursos em favor dos Estados e municípios, prometida por Guedes com o slogan “menos Brasília e mais Brasil” sem levar em conta o quadro fiscal gravíssimo na União.

Quase quatro anos depois, o déficit fiscal não aumentou. Mas há uma perigosa desorganização das regras fiscais e captura dos recursos públicos com o “orçamento secreto”.                                                                                                 

Na última quinta, o governo encaminhou projeto ao Congresso prevendo um déficit de R$ 65,9 bilhões para 2023. Se confirmado o resultado, esse será o décimo ano consecutivo de rombo nas contas públicas.  As contas só devem voltar ao azul em 2025. O desafio continua gigantesco. A campanha eleitoral está de novo nas ruas e o diálogo proposto por Guardia é ainda muito mais necessário.

*Esta coluna é uma homenagem a Eduardo Guardia, que faleceu no último dia 11 de abril. A vaidade dele não era ser bajulado, era ser reconhecido pelo que fez.

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