Educação a favor do empreendedorismo

Não é de agora que o empreendedorismo competente e responsável começa a criar musculatura no Brasil, fortalecendo ainda mais o espírito empreendedor que está na veia de milhões de brasileiros. Atualmente, as micro e pequenas empresas (MPEs) representam 99% do total das empresas, 20% do PIB brasileiro e respondem por grande parte do volume de empregos no País. Anualmente, são abertos cerca de 580 mil novos negócios, e 30% deles só em São Paulo.

RICARDO TORTORELLA, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2010 | 00h00

A notícia de que elas estão sobrevivendo mais - que divulgamos recentemente com uma pesquisa que monitora o desempenho das MPEs paulistas - merece, sim, uma comemoração: há 12 anos, 35% dos empreendedores que abriam seus negócios quebravam no primeiro ano de atividade. Hoje esse índice caiu para 27%. Paralelamente a essa queda, vimos crescer o número de empreendedores por oportunidade, aqueles que se prepararam para empreender, além de uma significativa melhora na qualificação do empresário: há dez anos, 62% deles tinham o ensino médio completo; hoje são 79%. Esse fato, junto com o maior acesso a informações sobre empreendedorismo, também tem impacto importante na redução da taxa de mortalidade das empresas.

Embora a queda mereça ser comemorada, esse índice pode e deve baixar. Primeiro, porque o custo social dessa mortalidade é muito alto tanto do ponto de vista financeiro quanto do social, já que com o sonho do empreendedor geralmente vão para o lixo a economia e o patrimônio familiar acumulado de uma vida inteira. A estimativa do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo (Sebrae-SP) é de que, por ano, desapareçam 84 mil empresas e com isso sejam perdidos 348 mil postos de trabalho e R$ 1,4 bilhão. Com o fechamento dessas empresas se perde um faturamento de R$ 18,2 bilhões, o que, somado à perda do capital investido pelos empreendedores, atinge R$ 19,6 bilhões anuais (dados de 2008). Uma perda equivalente a 811,7 mil carros populares, ou 27,5 milhões de refrigeradores, ou, ainda, 67 milhões de cestas básicas.

Mesmo com as quedas sucessivas da taxa de mortalidade de empresas, o número poderia ser ainda melhor. Em 2008, 58% das empresas paulistas com até cinco anos de atividade fecharam suas portas, enquanto em outros países, como Itália e Alemanha, esse índice cai para 46% e 37%, respectivamente. Grande parte do mérito pela sobrevida das empresas se deve ao fato de que esses países têm uma cultura empreendedora enraizada e valorizada, ou seja, empreender ali costuma ser algo planejado, quando se identifica uma oportunidade. Por aqui já tivemos melhora, mas muitos ainda abrem o negócio por necessidade e, por isso, ficam mais suscetíveis aos erros e, portanto, mais próximos da mortalidade. Para mudar essa realidade e fazer valer o título de povo empreendedor, é necessário investir na qualificação do candidato a empresário, e essa é uma lição que deve começar na sala de aula. Uma educação empreendedora, iniciada no ensino fundamental, pode reverter estes índices. Um garoto exposto à disciplina de empreendedorismo no início da idade escolar em dez anos já consegue sair da escola com uma boa noção das técnicas essenciais para ser um empreendedor de sucesso.

Um país que almeja patamares internacionais de desenvolvimento econômico não se pode dar ao luxo de ver as economias, o faturamento e a autoestima destes empreendedores irem para o lixo. Em 2015 o número de micro e pequenas empresas brasileiras passará dos atuais 5 milhões para 8,8 milhões, e temos de preparar melhor esses novos líderes de negócios.

Isso não é utopia. Nossas pesquisas mostram que, enquanto 27% das empresas fecham as portas em um ano, naquelas em que o empresário passou por alguma ação de capacitação do Sebrae-SP esse índice cai para 18%. E, para aquele que participou do nosso principal curso de gestão empresarial, o Empretec, esse número cai para 9%. Uma prova de que, quanto mais conhecimento o candidato a empreendedor tem sobre gestão empresarial, mais chances ele terá de sucesso no seu negócio.

DIRETOR SUPERINTENDENTE DO SEBRAE-SP

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