MARCOS DE PAULA/ESTADÃO
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Educação é necessária, mas sozinha não melhora produtividade

Baixo nível de escolaridade do brasileiro afeta decisões de investimento País

Karla Spotorno, O Estado de S. Paulo

26 Maio 2015 | 07h00

Não só a política econômica e a imprevisibilidade nas regras dos negócios no Brasil desfavorecem o aumento da produtividade no Brasil. Especialistas apontam a má qualificação profissional do brasileiro como uma barreira para essa melhora. O coordenador executivo do Fórum de Economia da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo (FGV-SP), Nelson Marconi, pondera que uma melhora na educação é condição necessária, ainda que não suficiente, para uma melhora da produtividade no Brasil. "Poderemos ter um aumento da escolaridade do País em um momento em que não há geração de empregos que demandam maior escolaridade", afirma Marconi.

De toda forma, o Brasil tem muito a avançar em termos de educação. Segundo levantamento do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), os adultos no Brasil têm 7,2 anos de estudo; os americanos, 12,4 anos; os alemães, 12,2; os japoneses, 11,6, e os franceses, 10,6 anos. Esse contexto é levado em conta pelo empresário na hora de investir, na avaliação do gerente de pesquisa e competitividade da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Renato da Fonseca. "Uma empresa pode querer importar uma máquina para inovar, mas se o trabalhador não está capacitado, de nada adianta", diz Fonseca.

O baixo nível de escolaridade também traz implicações diretas nas práticas de gestão das empresas, na avaliação do coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper, Naércio Menezes Filho. A menor qualificação profissional e a consequente gestão empresarial menos eficiente ajudam a explicar, na avaliação de Menezes, a baixa produtividade brasileira. "As práticas gerenciais são melhores nos Estados Unidos, por exemplo, que nas firmas brasileiras", diz.

O que é ruim para a competitividade brasileira é motivação para o trabalho de consultores do Boston Consulting Group (BCG). Em apresentação para executivos na Câmara Americana da Comércio (Amcham) em abril, o sócio e diretor do BCG, Masao Ukon, defendeu que um momento de crise como o atual, em que o PIB recua e a inflação avança, é o ideal para uma empresa investir em uma agenda de transformação. "Crise é o melhor momento para mudar, para questionar crenças e modelos. (Na atual situação), a produtividade é um tema ainda mais crítico", disse Ukon.

No estudo "Brasil: Enfrentando o Desafio da Produtividade", os consultores do BCG mostraram que 78% do crescimento de 3,3% do valor agregado no Brasil entre 2001 e 2013 deveu-se ao aumento no número de pessoas trabalhando, e que apenas 22% podem ser atribuídos a ganhos de produtividade, definida como o valor agregado por população ocupada. "Assim, temos um contraste claro com o padrão de crescimento de outras importantes economias emergentes nesse período", escrevem os consultores. A produtividade foi responsável por 89% dos 10,1% de crescimento anual da China no mesmo período, por 83% dos 7,1% de crescimento anual da Índia e 71% do crescimento de 4,2% da Coreia do Sul, segundo estudo do Boston Consulting Group. No contexto brasileiro, um salto na gestão empresarial, defende Ukon, fará muita diferença.

Para melhorar a eficiência, Menezes, do Insper, também defende regras trabalhistas mais flexíveis no Brasil. "Nos Estados Unidos, é possível ajustar o emprego e a produção de forma mais rápida do que no Brasil", diz. Nesse tema, o País convive com um embate no Congresso Nacional sobre o projeto que regulamenta a terceirização do trabalho. Na Câmara dos Deputados, foi aprovada a terceirização de qualquer atividade de uma empresa. No Senado, ainda não foi votada. O tema é tão polêmico que o governo brasileiro ainda não tem uma posição claramente definida, como declarou o ministro do Trabalho e Emprego, Manoel Dias, na semana passada. Ele receia que haja uma precarização do trabalho caso a terceirização geral seja aprovada.

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