Educação financeira e a arte de presentear

Uma pesquisa realizada pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban) mostrou que uma boa parte dos brasileiros busca maximizar sua satisfação no presente em detrimento da segurança no futuro. Muitos são os que se endividam sem cuidados, pouco avaliando as consequências para o dia de amanhã.

José Pastore, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2010 | 00h00

O consumo é a mola do desenvolvimento, sem dúvida. Mas o consumo sem planos desorganiza as finanças individuais e cria problemas de longo prazo.

Os diversos programas de educação financeira hoje existentes, de forma presencial ou eletrônica (há vários sites nesse campo), visam a formar a necessária disciplina para o uso consciente do dinheiro.

Os seus impactos vão além dos benefícios na área econômica. Eles contribuem para a formação de valores e condutas de grande valia para se enfrentar a realidade da vida. Faço um paralelo com a importância do presentear com critério.

Para a criança que é presenteada com parcimônia, o brinquedo recebido tem um significado afetivo. Ela se agarra a ele, tem ciúme e trata-o com todo carinho. Para a que recebe brinquedos em profusão, ao contrário, predomina a indiferença. Nenhum deles desperta o seu afeto. E, em muitos casos, nem dá tempo. A chegada de um é logo atropelada pela chegada de outro. A dispersão é inevitável. Consequência? Quem não tem apego ao que possui não aprende a lutar pelo que deseja possuir.

Como bem descreve o sociólogo Marcel Maus, presentear é um ato cheio de nuances e de muitos significados. As pessoas presenteiam por vários motivos. Muitas o fazem por amor e amizade. Outras, para cumprir a obrigação de retribuir. Há ainda as que se guiam por puro interesse, podendo chegar até ao suborno e à corrupção. Entram na lista também as que se especializam nos "presentes de grego" ? os que vão carregados de maldade.

Não podemos esquecer os que presenteiam por remorso. Para os pais ausentes em casa e que amargam um incômodo sentimento de culpa, o presentear compulsivo parece-lhes funcionar como um bálsamo capaz de comprar a felicidade do filho pelo resto da vida.

Ledo engano. O excesso de presentes sem contrapartida de esforço sinaliza para a criança uma realidade que não existe. Presentear com austeridade, isso sim, tem importantes implicações para as condutas futuras das crianças. Aprender a administrar a escassez na infância é fundamental para a criança desenvolver o necessário espírito de luta na vida adulta. Isso vale tanto para a poupança no campo econômico como para a reputação no campo social.

Ao subtraírem das crianças a noção de escassez, tratando-as como celebridades, os pais que assim procedem criam filhos que desconhecem o valor das vitórias pessoais e da necessidade de fazer tudo bem-feito para vencer nas carreiras e nas profissões.

A ética do trabalho não vem por acaso. Ela depende de um longo cultivo da virtude e da excelência. Por isso, ensinar a esperar e a postergar gratificações é preparar as crianças para enfrentarem com sucesso os desafios da vida de adulto. Praticar a disciplina no dia de hoje é a chave para se chegar à segurança no dia de amanhã. É assim que se forma a cultura da parcimônia.

Planejar o orçamento, valorizar o dinheiro, pesquisar as ofertas, barganhar antes de comprar, cuidar do que é comprado, substituir apenas o necessário ? são hábitos que se apreendem com bons exemplos e algum treino. Condicionar as gratificações ao esforço realizado e premiar com base no mérito constituem um caminho frutífero para formar hábitos de grande valia na vida prática.

Em outras palavras, a educação financeira, que leva as pessoas a usar o dinheiro de forma engenhosa e racional, tem reflexos que vão muito além da mera capacidade de acumular bens materiais. Ela contribui para difundir os valores da moderação nas gerações futuras. Por isso, faz todo o sentido incluir essa atividade na educação das crianças. Como tudo na vida, o que conta não é consumir muito, mas consumir bem.

É PROFESSOR DE RELAÇÕES DO TRABALHO DA FEA-USP. SITE: JOSEPASTORE.COM.BR

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