Rodrigo Messias e Vinícius Cardoso/Comunicação Colégio Magno.
Mercado de Pulgas no Colégio Magno, em São Paulo Rodrigo Messias e Vinícius Cardoso/Comunicação Colégio Magno.

Educação financeira em escolas do País avança 72% em cinco anos

Ao todo, existem mais de 1.300 projetos de educação financeira no Brasil; tema faz parte da Base Nacional Comum Curricular da educação infantil e do ensino fundamental

Bianca Gomes e Clara Rellstab, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2019 | 09h52

O dinheiro vem da Casa da Moeda, no Rio de Janeiro. A cédula lá produzida é feita de um papel especial antifraude, enquanto a moeda tem fabricação em aço. A poupança, por sua vez, é uma maquininha na qual o dinheiro entra e sai maior - mas só um pouquinho.

As afirmações são de uma turma de alunos com idades entre seis e sete anos do Colégio Magno/Mágico de Oz, na Zona Sul de São Paulo. Lá, educação financeira é um tema abordado em todas as idades, do berçário à educação infantil, por meio de projetos que remetem a situações do dia a dia.  As atividades vão de uma mini cidade, onde os alunos simulam compras e trabalhos, à uma visita ao supermercado para discutir valores e escolhas conscientes. 

Ações como a do Colégio Magno têm crescido no País. Segundo um levantamento coordenado pela Associação de Educação Financeira do Brasil (AEF-Brasil), iniciativas de educação financeira aumentaram 72% em cinco anos. Ao todo, foram identificados mais de 1.300 projetos sobre o tema, quase metade apenas em instituições de ensino. 

Segundo a superintendente da AEF, Claudia Forte, índices como mais de 60 milhões de brasileiros com nome negativado, o superendividamento dos aposentados e o baixo nível de poupança no Brasil são reflexo de uma geração que não se preocupava com a educação financeira. “Agora, a gente vive um momento no qual as pessoas estão buscando essas informações. Concluiu-se que é importante formar uma nação mais preocupada com o ato de ser coisas e não de tê-las”, explicou ao Estado.

O tema começou a ser discutido com mais ênfase em 2010, quando foi instituída a Estratégia Nacional de Educação Financeira (ENEF). Mas foi em 2017 que ganhou força, com a inclusão de educação financeira na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) da educação infantil e do ensino fundamental.

Desde então, os sistemas e as redes de ensino devem incorporar educação financeira e de consumo em escalas local, regional e global, como uma disciplina transversal, ou seja, que não é tratada apenas em matemática, mas em outras áreas, como linguagens, história e geografia. As instituições ou redes de ensino têm até o início do ano letivo de 2020 para adequar os currículos e propostas pedagógicas à BNCC

Na avaliação de Claudia Forte, o ensino da educação financeira trafega por todas as grandes áreas de conhecimento com muita fluidez. “É confortável abordar o assunto em qualquer que seja a disciplina, de acordo com a realidade e a idade de cada criança, desde que o professor tenha sido preparado e capacitado para isso”, resumiu.

No Colégio Maple Bear, uma visita à feira livre para falar sobre a extração da cana de açúcar no Brasil Colônia acabou abordando temas como poder de escolha e conferência do troco. Inicialmente, a atividade era apenas sobre História, mas no final também incluiu educação financeira. “A gente pensa junto de que maneira isso faz mais sentido para o aluno e como conseguimos unir as matérias para que seja mais significativo”, explica a mestre em linguística aplicada e coordenadora da unidade de Moema, Feliciana Amaral. 

Em outra dinâmica para abordar o tema, os alunos do último ano vendem doces para pagar as camisetas da formatura. Durante o processo, eles discutem questões como orçamento, controle de venda e investimento.

Tendência mundial

A eficiência  da educação financeira nas escolas foi comprovada em um projeto piloto feito pela ENEF, que contou com o treinamento de 1.200 professores, o desenvolvimento de livros didáticos e o ensino da temática para 27.000 alunos por três semestres. Depois de realizada, a iniciativa foi avaliada pelo Banco Mundial, que indicou melhora na proficiência financeira e no comportamento por parte dos alunos. A conclusão da experiência está no relatório  “Educação Financeira nas Escolas: Desafios e Caminhos”, do Banco Central. “Não é para ninguém ficar milionário, é pra viver bem com aquilo que tem disponível”, ressalta Claudia Forte.

Ainda segundo o documento do BC, desde a crise financeira de 2008, estudos sobre o impacto da educação financeira nas escolas foram conduzidos em diversos países. Na Espanha, por exemplo, o documento afirma que houve incremento na consciência dos alunos sobre o valor atual dos recursos e as consequências futuras de escolhas presentes. Em pesquisa no Reino Unido, foi constatado que as habilidades cognitivas relacionadas à leitura e matemática atreladas ao aprendizado de educação financeira são fortes preditoras de bons resultados financeiros na vida adulta.

A pesquisadora Ruth Hofmann, da Universidade Federal do Paraná, explica que, no exterior, a educação financeira é abordada em aspectos práticos, do cotidiano. “A gente tem em boa parte dos países desenvolvimento de materiais didáticos falando o que é um cartão de crédito, como ler um boleto, um holerite. São muito pragmáticos na abordagem.”

Tendência em outros países, o ensino da educação financeira no Brasil tem recebido incentivo para ser disseminado. Segundo o levantamento da AEF, aumento ocorreu sobretudo nas iniciativas gratuitas, que passaram de 23% para 32%. 

Exemplo disso é o Bank of America, que, em parceria com o Instituto Brasil Solidário, já conseguiu levar o conteúdo a 160 mil alunos por meio do “Projeto Jogos de Educação Financeira”, que funciona através do treinamento gratuito dos educadores das redes de ensino estaduais e municipais, com foco em jovens com faixa etária de 6 a 14 anos. A expectativa é de que, até o fim do ano, o ensino que começou no Ceará e que se dá com jogos de tabuleiro, chegue a 1 milhão de estudantes da rede pública brasileira.

“Quando a gente começa a falar do treinamento, nem entramos na questão de matemática: provocamos diálogos e conversas sobre o cotidiano. O que eles sonham ou desejam? Para isso, eles guardam ou não guardam o dinheiro? Vamos elaborando isso com linguagens ajustadas para crianças”, explica o diretor do Brasil Solidário, Luis Salvatore. Os jogos “Piquenique” e “Bons Negócios”, criados pelo grupo, visam a estimular aos alunos tomadas de decisões, cumprimento de responsabilidades do dia a dia, a experiência prática de investir e a negociação.

O projeto segue para nova etapa de expansão, envolvendo a distribuição de mais de 14 mil jogos na rede pública nacional e até em Santiago, no Chile, com um modelo adaptado para a realidade local. “Vai além da educação financeira, porque o jogo é inserido num contexto de vida real, com a troca de ideias sobre várias situações cotidianas. Os professores podem usar isso de uma maneira argumentativa para trabalhar outras disciplinas como língua portuguesa, história, geografia e ciências”, resume Salvatore.

O aumento de iniciativas de educação financeira se deu, principalmente, em escolas públicas. Elas representam 78% das instituições que tiveram ações mapeadas pela AEF-Brasil. 

Em São Paulo, a Escola Estadual Cesar Martinez abordava educação financeira com os alunos antes mesmo da BNCC. Mas no ano passado, a instituição recebeu, do Banco Central, apostilas sobre o tema e dinâmicas com os alunos. “Foi um dia só com atividades do BC. Eles conversam com as crianças sobre a importância do dinheiro e a sua utilização, sobre os animais que estão na cédula, que eram da nossa fauna”, conta a professora e coordenadora Solange Aparecida da Silva. “É um programa interessante que tem que ser expandido para outras escolas”, completa. 

O Banco Central tem colaborado, em diversas frentes, com a ampliação da educação financeira no País. Além de ter participado da interlocução com o Ministério da Educação para a inclusão do tema na BNCC, ele é membro do Comitê Nacional de Educação Financeira (Conef). Segundo o presidente do Banco, Roberto Campos Neto, o assunto faz parte da Agenda da autarquia, não só com projetos para escolas, mas no que diz respeito ao planejamento de longo prazo das famílias. 

Tudo o que sabemos sobre:
educação financeira

Encontrou algum erro? Entre em contato

Banco Central estuda incentivos para disseminar a educação financeira no Brasil

Segundo o diretor de relacionamento institucional e cidadania do Banco, Maurício Moura, a ideia é buscar algo próximo a um programa de fidelidade

Bianca Gomes e Clara Rellstab, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2019 | 09h57

Enquanto as crianças aprendem sobre educação financeira nas escolas, jovens e adultos precisam lidar cotidianamente com o assunto, muitas vezes de maneira forçada. O número de pessoas com o nome sujo ou endividadas alcançou 63,2 milhões em abril segundo dados da Serasa Experian. É o maior patamar desde o início da série histórica, iniciada em 2016, e equivale a mais de 40,4%  da população adulta do País

Pensando no alto número de endividados no Brasil, o Banco Central estuda incentivos para ampliar a educação financeira de jovens e adultos. Segundo o diretor de relacionamento institucional e cidadania do Banco, Maurício Moura, a ideia é buscar algo próximo a um programa de fidelidade. “À medida em que as pessoas vão fazendo cursos de educação financeiras, eles iriam adquirir pontos e, com esses pontos, teriam ou uma redução do custo do crédito nas instituições financeiras participantes do programa ou então uma melhor nota de crédito”, afirmou o diretor. 

Em maio deste ano, durante audiência da Comissão Mista de Orçamento (CMO) do Congresso Nacional, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, afirmou que planeja “premiar”  pessoas que participassem de programas educacionais com mudança na análise de risco de crédito junto aos bancos e ainda eventuais descontos ou promoções. "Criatividade e tecnologia são bem vindas para ajudar a aumentar a educação financeira no País", disse, à época.  

Os números não mentem a necessidade de mais conhecimento sobre finanças. Mas o esforço é outro, diz Ricardo Teixeira, coordenador do MBA de gestão de financeira da Fundação Getúlio Vargas (FGV), para quem a mudança de hábitos de consumo de adultos é uma tarefa mais difícil a ser cumprida do que com crianças. “Quando você vai tratar com um adulto sobre o hábito de consumo dele, ele precisa, antes de tudo, ter certeza de que quer essa mudança. É um ponto psicológico, uma tomada de decisão”, disse. 

De acordo com a superintendente da Associação de Educação Financeira do Brasil (AEF-Brasil), Claudia Forte, o resultado do ensino com os adultos é mais imediato do que com as crianças, porque eles ”sentem no bolso diretamente” a dificuldade em lidar com o orçamento. “A primeira dificuldade é que, diferentemente dos alunos e professores que a gente sabe onde eles estão, os adultos e aposentados nós temos que localizá-los. Depois disso, devem ser percebidos os hábitos desse público para que sejam desenvolvidos materiais adequados para aquela faixa etária”, explicou.

Cursos

Aos adultos interessados no assunto, existem cursos gratuitos sobre educação financeira. O BC oferece um portal dedicado exclusivamente à temática, que ensina, entre outras coisas, como lidar com crédito e endividamento. A Estratégia Nacional de Educação Financeira, por sua vez, oferece um programa dividido em quatro módulos, que passeiam entre assuntos como o orçamento doméstico e questões econômicas do Brasil. 

Para quem quiser se informar, existe o site Serasa Ensina, plataforma educacional criada pelo Serasa Consumidor e o Consumidor Positivo, do Boa Vista SCPC, que traz instrumentos para ajudar a organização da vida financeira, como planilha e cartilha de orçamento doméstico. O Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) possui o Meu Bolso Feliz, um portal de orientação financeira com planilhas, simuladores e testes que fazem um diagnóstico financeiro do consumidor, além de um aplicativo. No portal da Fundação Getúlio Vargas (FGV), há também opções de cursos com certificado de participação

Banco Central

Curso: Gestão de Finanças Pessoais

Site: http://www.cidadaniafinanceira.bcb.gov.br/edasuaconta/#!/curso.

Duração: 20 horas

Estratégia Nacional de Educação Financeira 

Curso: Finanças sem Segredos

Site: https://ead.vidaedinheiro.gov.br.

Duração: 10 horas

FGV

Cursos: Como organizar o orçamento familiar; Como fazer investimentos (nível básico e avançado); Como planejar a aposentadoria; E como gastar conscientemente

Site: http://www5.fgv.br/fgvonline/Cursos/Gratuitos

Duração: 12 horas

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.