Dida Sampaio/Estadão
Segundo especialistas, ingerência de Bolsonaro na Petrobrás gera incertezas quanto ao futuro. Dida Sampaio/Estadão

'Efeito Bolsonaro' nos mercados faz risco país disparar e pressiona dólar

Após interferência do presidente no comando da Petrobrás, o CDS, que mede o risco para se investir no Brasil, subiu 22,3%; o dólar, a despeito das intervenções do Banco Central, passou de R$ 5,44, há duas semanas, para R$5,67

Douglas Gavras , O Estado de S.Paulo

03 de março de 2021 | 05h00

A relação do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) com o mercado financeiro, que ajudou a elegê-lo em 2018, parece ter azedado de vez desde que o mandatário interveio na Petrobrás, na tentativa de conter a alta de preços de combustíveis e acenar positivamente para os caminhoneiros, parte importante da sua base eleitoral. 

Analistas ouvidos pelo Estadão ainda tentam mensurar os efeitos no mercado das intervenções recentes do presidente, e estudam até que ponto o “efeito Bolsonaro” pesará no mercado. Nos dias que antecederam a canetada do presidente no comando da Petrobrás, a Bolsa brasileira estava acima dos 119 mil pontos. Apesar de uma alta de 1,09% ontem, o Ibovespa, principal índice da Bolsa, lutou para se manter no patamar atual de 111 mil pontos.

Antes da intervenção, o dólar estava em R$ 5,44. Ontem, a moeda fechou a R$ 5,67, após dois leilões do Banco Central. Em fevereiro, estrangeiros retiraram R$ 6,783 bilhões da B3, o primeiro mês desde setembro de 2020 com fuga de capital. 

Desde a mudança forçada do presidente da Petrobrás até agora, o risco país medido pelo Credit Default Swap (CDS) de cinco anos subiu 22,3%. Enquanto isso, a curva de juros futuros de cinco anos subiu quase um ponto porcentual desde janeiro, para a casa dos 8% ao ano.

Para Alexandre Schwartsman, consultor e ex-diretor do Banco Central, o mercado até agora parecia acreditar em “poderes mágicos” do ministro da Economia, Paulo Guedes. “Essas pessoas não são ingênuas, mas havia uma crença de que Bolsonaro não teria alternativa. Só que já havia um conflito potencial entre as agendas dos dois e a pandemia acirrou isso. A intervenção na Petrobrás foi um tapa na cara do mercado.” 

Para o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, é difícil que os investidores recuperem a confiança que tinham depositado no presidente em 2018, muito por causa da escolha de Paulo Guedes para o Ministério da Economia. “A desconfiança não se dá só pelo que o presidente fez na Petrobrás, mas pelo que vem pela frente: novas altas de combustíveis, pressão na energia elétrica.”

Vale ressalta que esse cenário tende a fazer com que o presidente continue impaciente e disposto a intervir. “A popularidade dele ainda está baixa, a pandemia continua forte. Ele ficará tentado buscar soluções mágicas – e não vai achá-las.”

“O governo está em uma encruzilhada”, resume o economista-chefe da Necton, Andre Perfeito. Ele explica que, ao mesmo tempo que Guedes propõe ajustes de longo prazo, Bolsonaro diz que os problemas no curto prazo estão mordendo o calcanhar do governo. “Várias coisas acontecem no curto prazo: preço dos combustíveis, o novo auxílio emergencial. E talvez não haja mais tempo para ajustes antes de 2022.” 

O economista avalia que o governo tem dado tantos sinais trocados de mudança de rota, com medidas que o aproximam do populismo, que os efeitos são sentidos no aumento da desconfiança. “Há um mal-estar na Bolsa. O nível de tensão está alto.” / COLABORARAM ALTAMIRO SILVA JÚNIOR E DENISE ABARCA 

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'Petrobrás foi um tapa na cara do mercado', diz Schwartsman

Para ex-diretor do Banco Central, o que os investidores gostariam é de vacinação em massa, mas agenda é oposta à do presidente

Entrevista com

Alexandre Schwartsman, consultor e ex-diretor do Banco Central

Douglas Gavras , O Estado de S. Paulo

03 de março de 2021 | 05h00

A intervenção do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na direção da Petrobrás azedou a relação do governo com o mercado, prejudicando o desempenho da Bolsa e influenciando negativamente no risco país. Para Alexandre Schwartsman, consultor e ex-diretor do Banco Central, o mercado até agora parecia acreditar em “poderes mágicos” do ministro da Economia, Paulo Guedes.

“Essas pessoas não são ingênuas, mas havia uma crença de que Bolsonaro não teria alternativa além de se curvar a Guedes. Eu via que havia um conflito potencial entre as agendas de Guedes e Bolsonaro e a pandemia acirrou essa inconsistência. A intervenção na Petrobrás foi um tapa na cara do mercado.”

Ele diz acreditar que a tendência é que os investidores mantenham a desconfiança elevada, enquanto o presidente se movimentar para tomar medidas que olham mais para as eleições do ano que vem do que para a situação fiscal do País. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

O mercado age como se tivesse sido traído pelo presidente Jair Bolsonaro, após a intervenção na Petrobrás. O apoio ao presidente era ingênuo?

É injustificável, mas tinha uma crença nos poderes quase mágicos do Paulo Guedes. É quase comparável ao que ocorreu com (o ex-ministro da Fazenda) Joaquim Levy, no começo do segundo mandato de Dilma Rousseff. Era um discurso na linha ‘fica tranquilo, que ele vai resolver tudo’. E a gente está descobrindo que não é bem assim. Eu nunca comprei essa história, mas o mercado está entendendo que é muito mais complicado do que parecia. Essas pessoas são qualquer coisa menos ingênuas, mas havia uma crença de que o Bolsonaro não teria uma alternativa ao Guedes. Só que ele tem: seguir fritando o ministro até ele sair. Acho que a piada seria: Namore alguém que olhe para você, como o mercado olha para Paulo Guedes.

Esse cheque em branco dado ao ministro está saindo caro?

Guedes era o cara que disse que acabaria com o déficit em um ano. Ninguém tinha feito isso antes, por não ter a genialidade dele. Mas era claro que havia um conflito potencial entre as agendas de Guedes e Bolsonaro e a pandemia acirrou isso. A chance remota de os planos do ministro darem certo era fazer um ajuste fiscal rápido, o País voltar a crescer e ele poder entregar o que o presidente queria. Com a epidemia e a nossa péssima resposta à covid-19, o horizonte ficou muito curto. A agenda de Guedes não serve para o Bolsonaro hoje.

A mudança de comando na Petrobrás não foi um impacto momentâneo?

A Petrobrás foi um tapa na cara do mercado, foi o momento de perceber onde tinham se metido.   

No caso do presidente, não é uma questão de ideologia, mas de acomodação de interesses de parte de seus apoiadores?

Bolsonaro tem uma única prioridade nesta altura do campeonato, que é se reeleger. Ele vai fazer o que foi necessário para isso. Se tiver de atender os grupos de interesse, ele vai atender, para ter dividendos eleitorais. O acordo dele com o Centrão é basicamente para garantir uma blindagem para evitar um impeachment, e aparentemente vai conseguir.

Desde a intervenção na Petrobrás, o risco país aumentou, a Bolsa perdeu pontos e o dólar disparou. Podemos dizer que o mercado sente um ‘custo Bolsonaro’?

Sim, na falta de um nome melhor. Teve um pouco de turbulência lá fora também, mas se os indicadores ruins não aconteceram 100% por culpa de Bolsonaro, talvez tenha sido uns 85%.

Mercado e Bolsonaro podem se reconciliar?

Não deve acontecer uma reconciliação, as agendas estão bastante divergentes. O que o mercado gostaria é de vacinação em massa, o que é óbvio. Vejamos o que está acontecendo em Israel e mesmo nos Estados Unidos. No Reino Unido, a mesma história. Onde se conseguiu sucesso na vacinação, tiveram resultados econômicos e políticos positivos.

Depois do caos na Petrobrás, o governo correu para apresentar propostas de privatização para Eletrobrás e Correios. O mercado acredita nisso?

Não. Primeiro, que não vai andar. O mercado olha para isso e desconfia. A impressão que fica é que ele fez a bobagem da Petrobrás e quis reverter, em partes. Mas a gente olha para a proposta e ela não tem consistência, parece que foi para mostrar algo para não ficar com a marca de antimercado. Falta vontade.

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