Efeito em commodities é maior temor

Recessão nos EUA poderá derrubar preços de produtos básicos, com conseqüências até na taxa de juros

Ribamar Oliveira e Fabio Graner, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

19 de janeiro de 2008 | 00h00

Um dos maiores temores do governo em relação à crise é quanto ao que vai acontecer com as commodities. Uma recessão intensa nos EUA poderia pôr a economia mundial em marcha lenta e provocar uma forte queda no preço dos produtos básicos (agrícolas e minerais). Assim, o saldo da balança comercial brasileira teria uma redução ainda mais forte do que já se prevê, e a conta corrente do balanço de pagamentos, um déficit bem superior aos US$ 4,75 bilhões projetados pelo mercado. Se isso for acompanhado de uma fuga constante de capitais, como ocorreu na primeira metade de janeiro, o dólar poderia disparar, elevando os riscos de alta na inflação, que já vem subindo nos últimos meses. Para conter uma eventual escalada do câmbio, que tem sido um poderoso auxiliar no controle dos preços, o Banco Central poderia vender parte dos dólares das reservas e, possivelmente, subiria os juros - o que teria efeito negativo sobre o crescimento da economia.A possibilidade de elevar a taxa Selic para conter a pressão de preços já é discutida e até pedida por integrantes do mercado financeiro. Uma deterioração excessiva das contas externas exigiria altas maiores - alguns cenários falam em 2 pontos porcentuais, o que levaria a Selic de volta aos 13% ao ano. No receituário tradicional, já aplicado em outras crises, o governo poderia ainda apertar o cinto e fazer um superávit primário maior do que o programado. Isso teria um efeito de redução na demanda e permitira que o BC não tivesse de subir tanto os juros. Mas o atual comando da Fazenda dificilmente iria nessa direção, e se limitaria a manter o superávit previsto de 3,8% do PIB, como garantiu Mantega na semana passada. "O Ministério da Fazenda provavelmente não iria na contramão do BC, para atrapalhar, aumentando os gastos. Mas também não faria um ajuste maior, para preservar o maior volume possível de investimentos públicos", diz uma fonte da área econômica. As fontes ponderam, no entanto, que tais avaliações são para o cenário mais pessimista, que o governo não acredita ser o mais provável, ou torce para que não seja. Segundo essas fontes, Mantega tem argumentado, nas conversas internas, que, com reservas altas, superávit na balança comercial, dívida pública em queda (em relação ao PIB), além de crescimento "robusto", qualquer remédio necessário terá dosagem bem menor que no passado. "Antes, a economia não tinha anticorpos para enfrentar doenças. Agora, temos uma carga de imunidade que dá para enfrentar essa crise com certa tranqüilidade", diz uma fonte do governo.

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