Efeito em preço dependerá de gravidade da crise

Economistas veem impacto inflacionário até agora, mas colapso internacional dramático, como o de 2008, poderia ter consequências inversas

FERNANDO DANTAS / RIO, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2011 | 03h04

O Banco Central (BC) vem argumentando que a crise internacional pode ter um efeito deflacionário e contracionista, e esta é uma das razões para a decisão de cortar a Selic em 0,5 ponto porcentual, para 12%, na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Diversos economistas, porém, acham que o efeito por enquanto é inflacionário, embora não descartem a aposta do BC, se a crise internacional piorar muito.

"O BC iniciou o processo (de corte de juros) com duas hipóteses que não estão acontecendo", diz Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-ministro das Comunicações e sócio da Quest Investimentos. Ele se refere ao suposto efeito deflacionário da crise global e às promessas de contenção fiscal, das quais duvida.

Salomão Quadros, coordenador de análises econômica da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio, acredita que esta última rodada da crise internacional terá um impacto moderado na inflação de 2011. "Minha sensação é de que vamos ter um pouco de contribuição do câmbio na inflação ao consumidor, mesmo sem ser o fator principal. Ainda assim, vai agravar, atrapalhar, e pode colocar o IPCA acima do teto da meta (de 6,5%)."

Ele frisa que tudo depende da evolução do câmbio e das commodities, mas acrescenta que a alta do dólar das últimas semanas parece ser mais do que uma oscilação passageira, que se anularia pouco tempo depois.

Por outro lado, há o recuo das commodities, que compensa parcialmente a alta do dólar, e já vem ocorrendo nos últimos dias. Porém, para que as commodities despenquem a ponto de haver um efeito deflacionário, a crise internacional precisaria se agravar muito mais.

Na verdade, uma crise internacional muito violenta poderia ter efeito deflacionário como o de 2008 e 2009, quando a queda da confiança de empresários e investidores e a contração do crédito levaram a demanda na economia a despencar.

Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC, nota que há três anos, na esteira da quebra do Lehman, "a demanda acabou caindo muito mais rápido que a oferta". Ele reconhece que errou na ocasião, ao achar inicialmente que o efeito inflacionário prevaleceria.

Schwartsman acha que a crise de derivativos que infligiu grandes perdas a empresas como Aracruz, Sadia e Votorantim naquela época contribuiu no Brasil para o corte de crédito e a forte queda da produção industrial, que criou folga na capacidade instalada (o que é anti-inflacionário).

"Acho que o efeito agora será inflacionário, mas o pressuposto é que não haja aquela despencada de demanda", ele diz.

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