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Efeito feijão com arroz

Atual retomada foi prevista, mas está vindo bem melhor do que a encomenda

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2018 | 05h00

Há cerca de um ano, quando ainda havia muita insegurança sobre a recuperação da economia brasileira, escrevi numa coluna do Broadcast, serviço de informações econômico-financeiras em tempo real da Agência Estado, que “o simples fato de se colocar em marcha uma política econômica racional, mesmo diante de tremendas incertezas quanto à consecução de objetivos vitais desta política (como a reforma da Previdência), parece ter um efeito muito poderoso sobre as expectativas dos agentes econômicos”.

A ideia era que fazer o feijão com arroz consensual de política econômica empregado na maior parte dos países capitalistas bem-sucedidos, sem invencionices e truques mágicos, era suficiente para tirar a economia brasileira do abismo, mesmo que o problema crucial das contas públicas insustentáveis não fosse imediatamente resolvido.

O feijão com arroz consiste em grande parte em controlar a inflação para valer, não fazer maluquice com o câmbio, ser muito cauteloso ao intervir na economia, tomar medidas para melhorar a eficiência do País e se preocupar de verdade com as contas públicas.

A equipe econômica escolhida pelo presidente Michel Temer teve desde o início exatamente o propósito de fazer esse feijão com arroz. No segundo mandato de Dilma Rousseff também se tentou trilhar esse caminho, mas brigas internas e a crise política do impeachment atrapalharam.

Desde que o artigo mencionado acima foi publicado, houve uma avalanche de surpresas positivas na economia brasileira. A atual retomada foi prevista, mas está vindo bem melhor do que a encomenda.

Há um ano, a mediana da projeção dos analistas era de crescimento do PIB de 0,46% em 2017. Hoje já se espera 1%, ou até um pouco mais. Para 2018, as projeções também têm subido. O banco UBS, por exemplo, elevou ontem de 3,1% para 3,3% sua estimativa de crescimento do Brasil em 2018.

Também ontem foi divulgado que a produção industrial de dezembro cresceu 2,8% em relação a novembro, na série com ajuste sazonal, um resultado no topo das expectativas de mercado. O número pode levar a revisões para cima do crescimento da indústria e do PIB em 2018.

A inflação em 2017 foi muito menor do que se esperava no início do ano passado, quando a projeção mediana era de 4,86%. O IPCA, índice oficial, acabou ficando em 2,95%. Em consequência, os juros também caíram bem mais do que se previa. A Selic, a taxa básica, está em 7%, recorde histórico de baixa, e ainda pode cair mais um pouquinho.

No setor externo, o Brasil teve em 2017 o maior superávit comercial da história, de R$ 62 bilhões. O resultado foi obtido mesmo com aumento de 9,6% das importações – as exportações cresceram mais, 18%. Em termos de déficit em transações correntes, investimento direto estrangeiro, swaps cambiais, reservas, etc., o quadro é sólido e seguro.

Mesmo no crítico setor fiscal, o déficit primário do setor público total ficou em R$ 110,6 bilhões, mais de R$ 50 bilhões menor que a meta oficial de déficit de R$ 163 bilhões.

No mercado de trabalho, finalmente, também houve queda do desemprego acima da esperada pelos analistas. Infelizmente, porém, nem isso nem a melhora da renda foram suficientes para recuperar as perdas enormes durante a recessão de 2014 a 2016. Não surpreendentemente, a popularidade de Temer permanece no chão. Mas, a menos que uma nova crise gravíssima interrompa a retomada brasileira, a melhora do mercado de trabalho está a caminho.

O grande problema dos avanços trazidos pela política econômica do feijão com arroz – e também, é importante frisar, pela forte melhora do cenário internacional – é estimular a complacência. Afinal, já que a bolsa está em alta e a economia voltou a crescer, para que esse negócio desagradável de fazer reforma da Previdência, não é mesmo? Exatamente o tipo de mentalidade que semeia as novas crises do futuro.

* É COLUNISTA DO BROADCAST E CONSULTOR DO IBRE/FGV

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