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Efeito gogó

A causa da corrida ao dólar e aos juros nas últimas semanas não é pura especulação; É a impressionante desordem das contas públicas

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

25 Setembro 2015 | 21h00

Em dois dias, o efeito gogó mostrou surpreendente eficácia. Bastou que o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, desta vez acolitado por outras duas autoridades de Brasília, ameaçasse com bombardeio do mercado de câmbio com reservas cambiais, para que as cotações do dólar despencassem (veja o gráfico).

Haviam chegado a R$ 4,248 por dólar na quinta-feira e, nesta sexta-feira, fecharam a R$ 3,969. Além de ter derrubado as cotações, abafou a turbulência.

Efeito semelhante aconteceu no mercado dos juros. A aflição era tanta que muitos no mercado estavam despejando dinheiro em operações futuras a juros de quase 16% ao ano, quando os juros básicos hoje estão nos 14,25% ao ano. Aí veio a trovejada federal e esse segmento adormeceu relativamente mais tranquilo - embora muita gente tenha perdido dinheiro.

Tudo o que o Banco Central fez foi anunciar que está disposto a usar reservas externas. Manda o freguês. Se quer verdinhas, aí estão elas, à vontade. Isso significa que seu preço de feira cairá e quem tiver estocado a preços altos engolirá o prejuízo correspondente.

A pergunta agora recorrente é quanto tempo dura a trégua. Se tudo se resumir a essa ofensiva verbal; e se algo de mais consistente o governo não apresentar para reverter a causa de tudo, a turbulência voltará e, com ela, nova atropelada do dólar e dos juros no mercado secundário. Com uma agravante: a de que as ameaças ficarão desacreditadas.

A causa da corrida ao dólar e aos juros nas últimas semanas não é pura especulação. É a impressionante desordem das contas públicas, um fato objetivo, verificável a um exame das estatísticas oficiais. E isso provoca aflição, porque embute o risco, também mensurado pelas agências de rating, de que o governo não consiga honrar seus compromissos com os credores. E os principais credores não são os banqueiros e os rentistas, como repetem alguns. Somos todos os que têm um dinheirinho aplicado em fundos de renda fixa, nas cadernetas, em títulos públicos.

Uma coisa é usar o cacife reluzente quando o governo tiver uma quadra de ases na mão. Outra, muito diferente, é usar quando tiver umas cartinhas insignificantes. Blefe pode funcionar, mas se o outro lado cobrir a aposta ou pagar para ver, o adversário ficará pelado e desmoralizado.

Há pouco mais de uma semana, nem Tombini nem o ministro Joaquim Levy admitiam usar as reservas. Ao contrário, há anos o oficial de plantão vem repetindo que são o último recurso, quando tudo o mais já não estiver funcionando. Quinta-feira, Tombini e Levy passaram a dizer o contrário. Se estão dispostos a isso, e até que ponto, é questão controversa, que pode ou não ser testada, não dá para saber. De todo modo, se começarem a usar o último recurso, passarão a impressão de que temem pelo pior.

O risco maior do uso de reservas é de que evaporem em semanas, como um aviso de que água vai faltar. E isso, pela simples razão de que despejos de moeda estrangeira não consertariam o rombo fiscal, que é o problema de fundo. Ao contrário, tornariam a economia ainda mais vulnerável.

CONFIRA:

O aumento do desemprego vai sendo comprovado não só pelos levantamentos do IBGE, mas também pelo Ministério do Trabalho, por meio do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). É o que mede o mercado de trabalho pela abertura e/ou fechamento de postos de trabalho. O gráfico mostra o péssimo desempenho em agosto. 

Insegurança

É uma situação que reflete as incertezas e a falta de confiança na condução da política econômica. As empresas estão segurando investimentos e despedindo pessoal.

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