Efeito inconsistência

Começam a aparecer as distorções que se seguem à confusa e improvisada política de suprimento de combustíveis praticada pelo governo federal.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2011 | 00h00

O mercado interno está no limiar do desabastecimento. O consumo está subindo muito mais rapidamente do que a produção. Para dar conta da demanda, tanto a Petrobrás como os produtores de etanol estão acionando as importações. Os primeiros cálculos sobre esse apagão dos combustíveis, como o denominou a reportagem de Raquel Landim publicada domingo pelo Estado, preveem um rombo anual de US$ 18 bilhões na balança comercial.

Esse apagão tem a ver com três razões mais importantes. A primeira delas vem lá detrás. É o estímulo ao consumo propiciado pelo governo federal nos dois últimos anos, por meio do aumento das despesas públicas, decisão que criou renda.

A segunda razão foi a esticada dos preços do álcool hidratado que empurrou o consumidor que usa carros flex a trocar o álcool pela gasolina.

Esse aumento do consumo da gasolina está relacionado ainda com um terceiro fator: a decisão da presidente Dilma de impedir um reajuste dos preços da gasolina no varejo, supostamente para evitar o impacto no custo de vida. Esses preços não são reajustados desde junho de 2009, quando as cotações do barril do tipo Brent estavam a US$ 67. Hoje estão a US$ 123.

Além de estimular o consumo, essa política de achatamento dos preços dos combustíveis provoca outro efeito perverso, que é o de corroer os resultados da Petrobrás e, com ele, reduzir a capacidade de expansão cujos investimentos até 2014 deverão passar dos US$ 224 bilhões.

A escassez de etanol, por sua vez, aconteceu por dois principais fatores. O primeiro deles foi a quebra de produção de cana-de-açúcar na safra 2010 do Centro-Sul, em consequência tanto da seca como da redução dos investimentos. O outro, a decisão dos usineiros de transformar mais cana em açúcar do que em etanol, uma vez que os preços internacionais do açúcar permaneceram altamente estimulantes.

A reação do governo à quebra da oferta de etanol foi outra demonstração de improvisação. Foi ameaçar os usineiros com intervenção no mercado, com o objetivo de baixar artificialmente os preços. Embora até agora não tivesse sido levada adiante, essa ameaça foi feita num momento em que o governo brasileiro se posicionava no Grupo dos 20 (G-20) contra o pleito do governo francês de intervir nos mercados de commodities agrícolas.

Na semana passada, a Petrobrás fechou o primeiro contrato de entrega de petróleo proveniente do Campo de Lula (ex-Tupi), que está sendo extraído ainda em fase de desenvolvimento da área. Mas até agora nem a Petrobrás nem o governo sabem a que ritmo o petróleo do pré-sal deve ser produzido de maneira a não provocar novas distorções, seja pela forte necessidade de investimentos seja para garantir recursos com exportação.

Um bom começo seria o governo admitir de uma vez que não tem uma política consistente para a área. E, em seguida, não perder mais tempo em formulá-la e em colocá-la em prática.

CONFIRA

Efeito coelhinho

Um novo indicador de que o consumo permanece elevado foi apresentado ontem pela Serasa Experian: as vendas de Páscoa deste ano cresceram 9,1% em relação às do ano passado. Ou seja, a renda do consumidor continua forte.

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