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Efeito seca agora vai pressionar o preço da carne

Nas últimas semanas, o valor da arroba do boi bateu recorde, e a alta do custo começa a chegar à mesa do brasileiro neste mês

ALEXA SALOMÃO, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2014 | 02h06

A seca no Centro-Sul ao longo dos dois primeiros meses do ano prejudicou não apenas a agricultura. Afetou também a pecuária, o que levou os preços a bater recordes. O pecuarista já cobra mais pelo animal e o frigorífico também já repassou parte do aumento para os supermercados. O consumidor deve sentir os reajustes neste mês.

Diferentemente do que ocorre em culturas como soja, café e milho, não se perde o boi numa seca. O problema é que ele não engorda o suficiente. Nesse caso, o produtor segura o animal, o que cria escassez na oferta e pressão sobre o preço. É isso que está ocorrendo agora.

Na sexta-feira, por exemplo, houve um festival de recordes de preços na cadeia da carne. Em valores nominais (não reajustados pela inflação), houve picos de preços na arroba (unidade de peso do boi) em São Paulo e em Goiás. O valor do bezerro também aumentou e bateu recorde nos Estados de Goiás e Mato Grosso do Sul. Ainda houve recorde no preço da carne no atacado em São Paulo.

O levantamento foi realizado por Rodrigo Albuquerque, gerente da Fazenda Buritis & Safras, localizada em Jussara, no Estado de Goiás. Ele tomou como base os preços divulgados pela Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F) e pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, a Esalq, da Universidade de São Paulo (USP).

Os frigoríficos já estão repassando essa altas, mas elas ainda não estão chegando integralmente ao consumidor. Um exemplo: ao longo de fevereiro, o dianteiro subiu cerca de 10% no atacado. No varejo, porém, houve uma pequena queda de 0,4% no preço do produto. "Estamos repassando os preços, mas o varejo está segurando o que pode porque o consumidor não está receptivo a pagar mais", diz o executivo de um frigorífico que prefere não ser identificado.

No varejo, a variação do preço da carne não é homogênea. Os valores mudam de acordo com o corte e a região do País em que se origina o produto. Há açougues em São Paulo em que o preço do quilo da picanha e do filé mignon já subiu cerca de 30%. O quilo de outros cortes, como o patinho, apresentou variações pequenas ou nem aumentou.

Na avaliação do economista Paulo Roberto Molinari, especialista em pecuária da consultoria Safras & Mercados, é preciso levar em conta que a restrição da oferta se acentuou em fevereiro e será cada vez mais complicado segurar os preços.

"Desde o ano passado já havia uma tendência de alta nos preços, mas ela era provocada pelo aumento do consumo, tanto no mercado interno quanto no mercado internacional", diz Molinari. "Mas a seca, totalmente atípica nesta época do ano, afetou também a oferta, criando uma pressão adicional sobre os preços, que será sentida com mais força pelo consumidor ao longo de março."

Há uma peculiaridade adicional no mercado nesse momento. A seca afetou Estados do Centro-Sul - Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul. Mas há boi gordo em Estados mais ao Norte. Lá, porém, o problema é outro - a chuva. Nesta época do ano, normalmente já é complicado retirar os animais de Estados como o Pará, porque as estradas são muito deficientes. O excesso de chuva complicou ainda mais a logística e tornou os rebanhos dessa região inacessíveis.

Ano complicado. Segundo Albuquerque, da Buritis, que também faz análises de mercado para a consultoria BeefPoint, há um complicador a mais: a seca pode comprometer a produção ao longo de todo este ano, o que tende a manter o preço em alta. Isso vai ocorrer porque, no caso da pecuária, o efeito da seca recai sobre o pasto. Cerca de 85% do rebanho brasileiro é alimentado com capim. Sem as chuvas, os pastos secaram no período mais chuvoso do ano, em que a vegetação precisa de água para crescer até a altura da barriga do boi.

Na semana passada, as chuvas voltaram a cair em algumas regiões. O pasto até ficou verdinho, mas está rasteiro. Não atingiu a altura ideal para sustentar os bois ao longo do ano, principalmente no período mais seco. "A safra de pasto ficou irremediavelmente comprometida em várias regiões do Centro-Sul do País, e ele só será normalizado pelas chuvas da próxima estação, entre o final de 2014 e início de 2015", diz Albuquerque. O produtor tem a alternativa de engordar o boi com ração em confinamentos, mas a um custo maior - que, ao final, também será repassado ao preço.

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